Hoje só vejo pedra. Só pedra mesmo. Não pau e pedra, como na canção de Tom Jobim. Nem é a pedra no meio do caminho de Drummond. Nem a pedra de Pedro, sobre a qual foi assentada uma igreja.Só vejo pedra. E não são pedras que rolam, como as Águas de Março, nem pedras que cantam ou são cantadas. Sinto como disse no poema Paixão, da poeta Adélia Prado: “De vez em quando Deus me tira a poesia./ Olho pedra, vejo pedra mesmo”.Só vejo pedra. Vejo nos corpos das crianças esquálidas morrendo de fome em Gaza, só os corpos esquálidos das crianças morrendo de fome em Gaza. Pra falar somente de uma das muitas pedras.Às vezes nos acontece a todos nós, de não ver sentido algum na pedra, de não ver sentido em nada. Já me aconteceu muito, por dias, até por meses. Uma melancolia que não é doce, mas só árida, dura, quase impronunciável. Uma pedra. Parada no céu da boca. Só vejo pedra, só sinto o absurdo da pedra. E não dou conta de transcrevê-la em outras palavras.Nessas ocasiões, eu costumava recorrer a Manuel Bandeira para me traduzir, como agora recorro a Adélia. Relia a sua Oração a Santa Teresinha do Menino Jesus, em que pedia que Santa Teresa lhe desse alegria e “a força de acreditar de novo no Pelo Sinal da Santa Cruz”, pois não sentia mais “aquele gosto cabotino da tristeza”.Mas qual Deus, Adélia? Qual Deus lhe tirou aquele dia a poesia? Até a palavra Deus é para mim só uma palavra, uma palavra-pedra. Que Santa Teresa, Manuel? Que santa é essa que pode devolver a alguém a alegria? A minha santa é só uma imagem esculpida em pedra, que sequer existiu antes de ser imagem. É uma santa de pedra oca de significado. Faz tempo que perdi a pouca fé.Mesmo quando vocês sofriam dessa pedra na boca, na garganta, no coração, na alma, eram capazes de dizer dela, de a partir dela criar poemas bonitos para ser lidos por nós outros e nos consolar.Você, Adélia, se desmentia nos versos seguintes, porque a poesia ainda não havia sido tirada por Deus, ainda estava ali e a encontramos no desdobrar do seu poema todo. A sua pedra era cheia de significados, mas a minha não.E você, Manuel, consegui a seu modo rezar a partir da própria pedra. Se sua prece foi atendida, não sei dizer, mas ao menos escreveu um poema-oração.E eu, que posso fazer eu da minha própria pedra? Eu sim sou péssima cristã. Eu não sou poeta. Não sou lírica, nem ando mais dada a lirismos. Antes, eu conseguia ao menos ser engraçada quando estava triste. Era o que uma amiga me dizia: você fica muito divertida quando está desesperada. E escrevia até umas crônicas engraçadinhas, capazes de fazer alguém sorrir.Mas, agora, só vejo pedra, nem poesia, nem lirismo, nem graça, nem o humor tragicômico dos desesperados.O que fazer dessa pedra? Posso tentar traduzi-la por palavras prosaicas, como tristeza, angústia, melancolia, desesperança; adotar as explicações de outros que parecem também sentir a mesma pedra. Como as palavras de um psicólogo que em um vídeo recitava esse início do seu poema, Adélia, explicando que deveríamos aceitá-la, a ela, a angústia, pois é natural, inerente ao humano, e logo passaria. Será que essa pedra passa mesmo?Segundo os existencialistas, como Sartre, parece que a angústia não passa nunca. A pedra, portanto, sempre há de ser apenas pedra? E teremos de viver até o fim com essa náusea?De acordo com os psiquiatras, a pedra pode ser tratada. Há antidepressivos, ansiolíticos, soníferos, mas quem garante que esse não é somente um anestesiamento provisório e que a pedra não continuará ainda mais petrificada? Para os psicanalistas, parece, pode-se escarafunchar até encontrar a origem da pedra. Mas encontrá-la há de fazer com que se transfigure?Por enquanto só pedra vejo. Mas talvez o fato de ainda ver e sentir a pedra, seja afinal um sinal esperançoso de que o coração ainda não está totalmente empedrado. Vai que amanhã eu olhe a pedra e veja, por exemplo, uma borboleta.