Um dos títulos que anunciaram a morte do escritor e jornalista Zuenir Ventura, no último dia 22 de setembro, dizia que ele era “interminável”. Um jogo de palavras com o seu livro mais famoso, 1968: O Ano Que Não Terminou, certamente um dos testemunhos mais relevantes sobre um Brasil afundado na ditadura militar. Zuenir viveu no olho daquele furacão que fechou o Congresso, tomou o Supremo, assassinou pessoas em seus porões, exterminou movimentos culturais tão valiosos, como o Cinema Novo, agrediu seus filhos, calou a imprensa, atentou contra as liberdades mais básicas e criou seres monstruosos.Encerrando o capítulo Um Pouco de Carne desta obra-prima da história brasileira, Zuenir escreve: “Um dos representantes da linha-dura traduzia o espírito do grupo: ‘Para esse moço, só sanções definitivas para colocar um ponto final nas provocações.’ Como se veria mais tarde, o que o grupo queria mesmo era colocar um ponto final no país.” Esse depoimento a respeito de um tempo cheio de dor e violência, regado a autoritarismo e arbítrio, é, antes de tudo, didático. Ele nos alerta sobre erros cometidos num passado não tão distante, que ainda apresenta as cicatrizes que deixou na carne dos perseguidos, e que insistem em ser repetidos. As pessoas deveriam ler mais Zuenir Ventura, entender melhor as engrenagens que ele descreve, os horrores que presenciou e os avisos quanto aos caminhos tortos que levaram o Brasil àqueles anos insanos.Ele voltou a abordar aquele tempo em um dos quatro volumes de Vozes do Golpe, que dividiu com os amigos Luis Fernando Verissimo, Moacyr Scliar e Carlos Heitor Cony. Mas outras formas de atentar contra os direitos e a democracia sempre estiveram no radar do escritor, que alertava, em trabalhos memoráveis, para essas chagas abertas em nossa sociedade. Ele cobriu o assassinato do ambientalista Chico Mendes, no Acre, em 1988 e daquela missão surgiu o livro Chico Mendes: Crime e Castigo, em que traz uma reflexão impactante, 15 anos depois do homicídio, sobre o que viu na época da execução e a impunidade que reinava sobre o fato uma década e meia depois. Em Cidade Partida, ele se debruça sobre a barbárie da chacina de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, perpetrada em 1993, após dez meses investigando as circunstâncias da matança, suas vítimas e culpados, revelando detalhes que deixaram a tragédia ainda mais sórdida.O olhar humanista do repórter aliado a muita cultura, ao manejo impecável da linguagem e a um humor refinado fizeram de Zuenir Ventura uma referência. Até mesmo seus dramas viraram obras inestimáveis, como Inveja: O Mal Secreto, no qual, a partir do resultado preocupante de um exame, ele faz um verdadeiro ensaio sobre os nossos sentimentos mais profundos e inconfessáveis.Tive a chance de conhecê-lo pessoalmente. Mais que isso, tive o privilégio de papear longamente com ele durante um jantar. Fui convidado pelo Banco do Brasil para mediar uma de suas edições do Circuito Cultural, projeto que levava a todo o País vários eventos, como debates, sessões de cinema e mostras de arte. Uma das mesas-redondas reunia Zuenir Ventura e Ana Miranda, escritora fabulosa de títulos como Boca do Inferno. Em outra, estavam os jornalistas e escritores Ivan Ângelo e Nirlando Beirão. Após os debates, fomos jantar num restaurante português aqui de Goiânia. Zuenir contou muitas histórias, riu de várias lembranças, falou de suas inspirações. Um momento inesquecível.Enquanto escrevo esta crônica-homenagem, tenho aqui na minha frente livros de Zuenir. E penso que estamos a poucos dias de mais uma decisão sobre os destinos do Brasil. E lamento que relativamente poucos eleitores e eleitoras puderam lê-lo antes de seu voto. Seus livros evitariam novas catástrofes. Portanto, que tal ler Zuenir Ventura?