Sou de esquerda desde criancinha, respondi ao amigo que questionava minha postura frente aos acontecimentos atuais no Brasil e no resto do mundo; e disse ainda que apoiarei sempre quem possa enfrentar essa extrema-direita que ameaça destruir os valores de solidariedade que a esquerda sempre defendeu. Posso sair derrotada? Sim, podemos, mas peço a Deus com todas as minhas forças para que eu não tenha de assistir mais uma vez àquela indecência dos quatro anos pavorosos sob a batuta de um Bolsonaro.Sim, sou de esquerda e morrerei sendo. Quando nada, quando nada, para honrar meu pai, que nunca foi comunista, mas um socialista convicto que, de vez em quando, dizia (otimista que era) que o socialismo democrático - em que se garantisse os direitos individuais - era o único futuro possível para a humanidade. E dizia também que não era comunista porque desconfiava de tiranias e burocracias opressivas, não aceitando que o Pravda (jornal soviético) quisesse controlar sua forma de pensar e se expressar. Como também nunca aceitou a Quartelada, como se referia à ditadura no Brasil.Mesmo assim, foi denunciado de forma traiçoeira como tendo uma mente doentiamente esquerdista, e teve de responder a Inquérito Policial Militar, deixando a todos da família apreensivos, já que os milicos não estavam para brincadeira mesmo, como sabemos. E eram muito truculentos. Livrou-se de uma prisão mais extensa e sabe Deus do que mais, porém manteve suas convicções até o fim da vida.Mas não só meu pai influenciou minhas ideais. Se formos analisar os artistas do mundo, ao longo da história, a maioria dos grandes criadores sempre foi de esquerda. Para considerar apenas a literatura: - são pouquíssimos os escritores de direita que produziram obras duradouras. Para cada Ezra Pound ou Jorge Luis Borges, conhecidos pelo pensamento alinhado à direita, temos em maior número de escritores maravilhosos que cerram fileira com a esquerda.Senão, vejamos: John Steinbeck, Jean-Paul Sartre, Máximo Gorki, Gabriel Garcia Marquez, Ernest Hemingway, Bertold Brecht, Graciliano Ramos, Émile Zola, Jorge Amado, José Saramago, Pablo Neruda, Michael Sholokov e muitos, muitos outros, enquanto os da direita que se destacaram - e é certo que existiram - podem ser contados nos dedos de uma mão.Os escritores de esquerda foram grandes porque seriam grandes de qualquer jeito, e talvez até sua posição política nem tenha ficado claramente estabelecida em sua arte, mas parece ter havido neles uma sensibilidade diferente, uma visão de mundo mais abrangente e humana, destoante do fascismo que surgiu durante o século 20, período a que me atenho nesta crônica.Outros pensadores de esquerda no Brasil foram: Paulo Freire, Bernardo Élis, José Godoy Garcia, Milton Santos, Caio Prado Junior, Jessé Souza, Oscar Niemeyer, Florestan Fernandes e outros tantos.Uma circunstância que também ajudou a fazer minha cabeça foi o ano que passei nos States (1968/69), no auge da guerra do Vietnã, quando era forçada a conviver com a classe rica e conservadora do país em casa e na escola, percebendo em muitos deles um grande apoio ao massacre dos vietnamitas e vietcongues, aliado a uma certeza absoluta de que o país devia mandar no mundo inteiro, o que ficou claro em tantos ataques que perpetraram contra outros povos desde então. Ao mesmo tempo, era evidente uma falta de apreço pela cultura, pelos debates nas universidades e pela liberdade de pensamento.Percebia neles, e ainda percebo, uma falha da capacidade de se comover com a poesia, de se encantar com a beleza da arte, uma falta de compaixão e um egoísmo e pragmatismo levados ao extremo. Óbvio que nem todos são assim e sempre houve e sempre haverá grandes escritores de língua inglesa, grandes artistas, os quais, via de regra, passam longe da ganância desenfreada e da falta de solidariedade e humanismo da extrema direita em todos os países do mundo.Em tempo: assisti pela segunda vez a O Agente Secreto. Filmaço mesmo. Como disse outro amigo: quem perdeu foi o Oscar, que, aliás, nem deveria ser tão valorizado.Saravá