Éric Rohmer (1920-2010) era um sujeito tão discreto que a mãe dele morreu sem saber que o filho era um cineasta mundialmente famoso. Escrevo estas linhas aleatoriamente, pensando nos grandes filmes dele.Sei que Rohmer ensaiava à exaustão com os atores, de tal forma que as filmagens eram rápidas, com equipes reduzidas. Em alguns casos, além dele e dos atores, havia apenas o operador de câmera e o engenheiro de som. Por fazer uma pré-produção minuciosa, não perdia tempo nem desperdiçava material, o que era ótimo, dados os orçamentos irrisórios de que dispunha.Dizem que o pessoal do laboratório, ao receber os copiões d’A Colecionadora, achou que se tratava de um curta-metragem. Salvo engano, foi o primeiro filme colorido de Rohmer. Ele e o fotógrafo Néstor Almendros fazem um uso esplendoroso da luz natural. De novo, a invenção nasce da necessidade, pois tinham poucas luzes artificiais à disposição. A sensualidade que atravessa a narrativa é iluminada pelas janelas abertas para o ócio e pelos poros abertos sob o sol e sob os olhares dos outros e (claro!) diante dos nossos olhos.Há uma célebre fala do personagem interpretado por Gene Hackman em Um Lance no Escuro, de Arthur Penn. A esposa o convida para ver Minha Noite com Ela. Ele responde: “Vi um filme desse Rohmer uma vez. Foi como ficar observando a tinta secar”. Penn, sublinhe-se, era admirador do colega francês e estabelece um diálogo muito bacana com o ciclo dos Contos Morais, composto por dois curtas e seis longas, incluindo os já citados. Nestes, a questão central diz respeito às escolhas que fazemos quando temos plena consciência das consequências que advirão. Um homem está apaixonado por uma mulher e conhece outra mulher, por quem se interessa. Trair ou não trair? Trair ou não trair a si mesmo? Trair ou não trair a ideia que tem de si? São questões difíceis, às quais todos respondemos em algum momento da vida, bem ou mal.Em Um Lance no Escuro, o personagem de Hackman descobre que a esposa está tendo um caso. Depois, quando tem a oportunidade de dormir com outra, ele dorme, mas não faz uma escolha no sentido rohmeriano: ele trai por estar entediado. Eis um animal triste, um corno merecedor dos chifres, um corno sem imaginação. Esse sujeito nada tem da vitalidade de Haydée (Politoff), personagem de A Colecionadora — alcunha que lhe é impingida pelos marmanjos que estão ao redor, agindo como crianças. Haydée busca algo, embora não saiba muito bem o que, mas ela busca e se diverte e, caramba, vive.Os diálogos sempre me apaixonam nos filmes de Rohmer, desde as discussões filosóficas sobre Pascal em Minha nNoite com Ela até o papo sobre a cor das alfaces durante um almoço n’O Raio Verde. Mas, antes dos diálogos, estão os espaços, como os personagem se situam e as formas como são enquadrados e recortados, não raro pela luz natural. A luz incide, esconde, revela, direciona o olhar e, junto com o olhar, o juízo, que é discutido, problematizado e, dependendo das circunstâncias, tranquilamente ridicularizado.Fredric Jameson afirmou que, enquanto Andrei Tarkovski empanturra o olhar do espectador, Robert Bresson trata de esfaimá-lo. É uma boa sacada. Seguindo por esse caminho, Rohmer sempre me ofereceu a porção justa e adequada, de tal forma que seu cinema é também um exercício de reeducação alimentar.