Toda grande história de amor na literatura parece ter um final trágico, vocês já repararam? A mais famosa é, sem dúvida, a de Romeu e Julieta, mas há muitas outras: O Morro dos Ventos Uivantes, Madame Bovary, Anna Karenina. Obras marcadas pelo drama e pela intensidade.No cinema, não é diferente. Filmes como Titanic, Casablanca e Moulin Rouge seguem a mesma linha: laços interrompidos, impossíveis ou condenados à perda. É curioso notar que são justamente essas histórias — de amor não realizado ou tragicamente encerrado — que mais comovem e fazem sucesso.Será que o amor duradouro não tem o mesmo apelo? Será que só a paixão intensa, breve e arrebatadora nos encanta? Se Romeu e Julieta tivessem sobrevivido, superado suas famílias e vivido juntos por décadas, a história teria o mesmo impacto? Provavelmente, não.Parece que não nos interessamos tanto pela trajetória de um casal que envelhece lado a lado — dividindo a rotina, enfrentando dificuldades, discordando em alguns dias e se reconciliando em outros. Esse tipo de amor, mais silencioso e persistente, raramente ganha destaque. Não parece glamouroso, nem intenso, embora, por sua natureza, seja o mais desafiador.A realidade costuma ser bem diferente do ideal romântico. A artista Dina Goldstein explorou isso na série Fallen Princesses, retratando heroínas dos contos de fadas em situações comuns e desidealizadas: Branca de Neve sobrecarregada com filhos em uma casa caótica, enquanto o príncipe, sentado, bebe cerveja; Cinderela solitária em um bar, tomando todas; Rapunzel doente num quarto de hospital. Imagens que desmontam totalmente o “felizes para sempre”.Ainda assim, as pessoas continuam se apaixonando e se casando, talvez acreditando que o sentimento durará para sempre, talvez movidas pelo encanto da celebração, da lua de mel, dos planos compartilhados. Até que a vida cotidiana se impõe - contas a pagar, responsabilidades, frustrações. Com o tempo, surgem os conflitos, e, muitas vezes, a separação (isso pra não falar agora na coisa mais monstruosa de todas, o feminicídio, que jamais se esgotaria em uma só crônica).Esse tem sido um roteiro cada vez mais comum.Minha avó dizia que uma casa sem Deus tende a se desfazer. Sua visão era moldada muito pela Igreja, mas também pelos valores de sua época: um tempo em que se esperava da mulher submissão e sacrifício. Frases como “a mulher sábia edifica sua casa”, “Casamento, a mulher é quem faz” orientavam sua vida. Assim, ela permaneceu ao lado do meu avô, apesar de tantas dificuldades. Aliás, minhas duas avós teriam mil razões pra chutar o balde, mas separação simplesmente não era uma opção, era impensável. Não estou dizendo que estavam certas ou não, estou mostrando a mentalidade da época e do lugar em que viveramHavia amor? Acredito que sim, ainda que misturado ao costume, à obrigação e às circunstâncias. Um tipo de vínculo que refletia uma estrutura social desigual, bem mais favorável aos homens.Hoje, todo mundo sabe, as mulheres buscam — com razão — igualdade. Muitas questionam o modelo tradicional; algumas optam por não se casarem ou não terem filhos, outras exigem parceria real na criação deles.Minhas avós permaneceram com seus maridos até a morte. Mas fica a pergunta: que mulher, atualmente, estaria disposta a viver da mesma forma, esquecida de si mesma, dentro de casa o tempo todo, cuidando dos filhos que Deus mandava, sem escolha ou voz?