Renato, se estivesse entre nós, amanhã você celebraria seu aniversário de 65 anos. É estranho dizer “se estivesse”, porque minha impressão é que você ainda está. Aliás, se formos pensar que conheci a Legião Urbana quanto tinha apenas 12 anos, poderia dizer que você sempre esteve. Suas músicas fizeram parte da minha história e podem conduzir uma linha do tempo dos momentos mais marcantes. Acho que nenhuma outra banda consegue esse feito. Como eu disse, conheci a Legião ainda criança, quando tocavam Quase sem Querer na hora do recreio e, na minha inocência, era somente uma baladinha romântica.Até hoje me lembro do dia em que meu pai viu você pela primeira vez na televisão. “Meu Deus, como assim? Eu imaginava que o Renato Russo fosse um cara doidão, de cabelo comprido e cheio de tatuagens, e daí ele surge de óculos e camiseta branca, parecendo um professor de escola?”, disse ele, espantado, aos risos.Pois é professor Renato, você surpreendeu muita gente ao longo de sua vida. Inclusive a mim, que sempre que pensava que já havia ouvido tudo de bom que a Legião poderia oferecer, porém, a cada lançamento da banda ou seu, solo, percebia que o melhor ainda estava por vir.Foi no ensino médio que fui obrigada a prestar mais atenção nas suas letras. Muitas foram temas de redações e de questões em provas de português. Nem sei quantas vezes cantei “é só o amor, é só o amooooor, que conhece o que é verdade”, ou “é preciso amaaaaaar as pessoas como se não houvesse amanhã”. Eu adorava Monte Castelo e Pais e Filhos. As Quatro Estações é meu álbum predileto. Meu sonho de adolescente era ter um namoradinho que me escrevesse “Quando não estás aqui/ Tenho medo de mim mesmo/ E sinto falta do teu corpo junto ao meu”. Sete Cidades era uma das declarações de amor mais bonitas que eu já havia visto.Você entrou com mais força na minha vida na época da faculdade. Nos corredores do prédio do curso de jornalismo da Universidade Federal de Goiás é que comecei a compreender, de fato, a crítica social das suas canções. Geração Coca-Cola, Faroeste Caboclo e Que País É Esse? ganharam outro sentido, mais amplo e importante. Um dos primeiros amores veio aos 20 anos e, com ele, uma desilusão proporcional ao tamanho da paixão. Eu achava Strani Amori tão brega na voz da Laura Pausini. Já na sua, tornou-se um hino ouvido centenas de vezes, que descrevia como ninguém a ambiguidade e a intensidade do amor.Mas a música que embalava mesmo minhas fossas juvenis era Por Enquanto, gravada pela Cássia Eller. Doía até a alma. As estações mudavam, tanta coisa acontecia, mas eu continuava com vontade de chorar sempre que a ouvia. Foi também na voz de Cássia Eller que outra música sua virou uma espécie de mantra. “Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher/ Minha mãe e minha filha/ Minha irmã, minha menina/ Mas sou minha, só minha e não de quem quiser”. A letra de 1º de Julho era a representação da complexidade do universo feminino e da nossa busca por liberdade e respeito. Há alguns anos, ganhei de presente O Livro das Listas – Referências Musicais, Culturais e Sentimentais, que reúne trechos dos seus cadernos de anotações, ao longo de 30 anos, com suas “seleções pessoais”. As músicas que você mais gostava, os livros e os filmes se misturam às tarefas cotidianas que deveriam ser executadas. Na página 143, é engraçado ler entre “verificar as contas” e “telefonar para Rafael”, a meta de “fazer esta depressão ir embora & ir ver quem você ama (pode ser a última vez, você sabe disso)”. Espremidos em um cotidiano que sufoca e adoece, seus rastros de afeto e humanidade resistiam. Talvez por isso, você ainda viva em mim.