No réveillon em 2010, eu estava em uma chácara perto de Joanópolis e uma amiga me chamou para ir à cidade: “Me lembra de comprar Salonpas, meu ombro está doendo”. Na rodovia, ela freou de repente; um gato atravessara a pista. Desceu e voltou com o bichano nos braços. Falei: “Se for adotar, o nome será Salonpas”. “Já tenho dois. Por que você não adota?” Adotei. E logo vi que era ela. Eu me mudara para São Paulo meses antes. Dividia o apartamento com dois conhecidos. Eles não se incomodaram com a chegada de Salompas (sic), mas ela se incomodava com as festas e a presença de pessoas estranhas; a rotina era caótica, e eu também não curtia isso. Não demorou para que eu e Salompas nos mudássemos para um canto só nosso. Desde então, minha casa e ela se tornaram uma coisa só. Só tenho boas lembranças dos quase 16 anos de convivência — em 2015, Kelly se juntou a nós e Salompas ganhou a melhor mãe que poderia ter. Os poucos problemas de saúde que teve foram decorrentes de sua falta de noção, saltando de estantes altas demais, dando com a fuça no vidro da sacada ou deslocando o ombro ao aterrissar no bufê. Como ronronasse baixinho, eu dizia que era uma gata tecnologicamente avançada, cujo hardware operava silenciosamente. Era expressiva e inteligente. Dormia sobre mim, informando no meio da noite que movimentos bruscos não seriam tolerados.