Em Caridade, no Ceará, tem santo sem cabeça. Em Candeia, cidadezinha do delicioso livro de Socorro Acioli, tem cabeça sem corpo de santo. Ou tanto faz a ordem das ausências se o produto não é um santo inteiro?Aqui em casa o que não falta é corpo de santo com ausência daquilo em cima do pescoço. E já teve mais. Perdidas as cabecinhas, perderam-se depois os corpinhos, que é o que ocorre, mesmo aos santos, quando se lhes quebra o juízo. Sobraram uns dois e uma santa, além de um Espírito Santo ainda com a pomba inteiriça, e um São Judas Tadeu.Explico tal abundância cristã. É que eu não dando a educação católica que, como mãe, talvez devesse dar ao filho, a madrinha, minha irmã, tomou a incumbência para si. Levava Fernando, pequenino, aos domingos, para assistir à missa na Igreja Santo Expedito. Como, porém, os genes do ceticismo já se manifestassem nele, ela barganhava com as imagens em miniatura na lojinha da sacristia. Comprava-lhe, se não a fé, o compromisso de que ele não se encapetasse durante a missa.Em vão, pois ele resultou em ateu e o oratoriozinho que montamos em casa, com as estatuazinhas do tamanho de meio dedo, foi dizimado em guerras santas. Fernando os martirizava mais uma vez e os punha a lutar, se não entre si, com outros brinquedos: dragões, transformers e minecrafts.Havia uma lógica nas suas predileções: ele escolhia aqueles que portavam armas, como Santo Expedito, o guerreiro, ao qual, se sobrou a espada, soçobrou o crânio.Durante algum tempo, eu até recolhia os despojos das batalhas e colocava em uma caixinha, urna mortuária coletiva, na promessa de ainda ressuscitá-los, colando as partes.À coleção guilhotinada acrescentei uma Santa Luzia protetora dos olhos que comprei em Jijoca de Jericoacoara, cidade de que ela é padroeira. Como a propensão a desmembrar imagens sagradas parece coisa de família, ela teve o tronco separado do corpo, nas minhas mudanças sucessivas de casa e de ideias, de Goiás para o Ceará e vice-versa. Ao menos as metades foram preservadas, ao contrário das cabecinhas dos outros santinhos, extraviadas.Mas o que quero contar mesmo nessa crônica, até aqui “nec caput nec pedes”, é que o livro Cabeça de Santo de Socorro Acioli é daqueles que mexem com aquela parte da gente que abriga os olhos e a imaginação. O personagem principal vai parar dentro da cabeça de uma estátua de Santo Antônio no vilarejo fictício de Candeia e lá ouve as preces das mulheres que desejam se casar, criando artimanhas para que seus desejos sejam atendidos.A escritora cearense que tem encantado o Brasil com essa e outras histórias, começou a escrevê-lo quando, em 2006, fazia em Cuba uma oficina de conto com o escritor Gabriel García Márquez.Socorro se inspirou na estátua degolada que existe no município cearense de Caridade e conta que mesmo Gabo duvidou dessa existência fantástica, tendo ela que provar para prosseguir na oficina.Para nossa sorte prosseguiu, publicando em 2014 o romance que tem na capa amarela apenas a cabeça do santo. Foi olhando a imagem que me lembrei de necropsiar os santinhos degolados de meu filho, colocando um dos corpinhos a emendar-se com o corpo, como se montasse um quebra-cabeça.Mas bem montado mesmo, sem nenhuma pecinha solta, é o enredo do livro, que agora vai se tornar filme. E graças ainda ao sucesso do romance, também a pequena Caridade, que está vivendo um incremento do turismo, talvez até mais literário do que religioso, vai ganhar uma nova estátua do casamenteiro, dessa vez inteirinha.Todo esse encaixe fantástico de histórias mostra como não os santos, mas a boa literatura faz milagres. Quanto aos santinhos guilhotinados e desmiolados aqui de casa, até agora nada! Quem sabe, porém, se eu incorporar à coleção de meu filho um Santo Antoniozinho e afogá-lo, depois de decapitado.