Em uma casa simples, de paredes sem reboco e chão de terra batida, no interior do Maranhão, mora Manuela, uma menina negra de 8 anos. Todos os dias, ela se senta diante do celular da mãe e ensina quase 700 mil seguidores a fazer penteados em cabelos crespos usando cadarços de tênis, presilhas e elásticos.A habilidade da pequena é impressionante. Em poucos minutos, Manu, como é conhecida, cria os mais variados penteados, encantando o público com sua criatividade e beleza. Há algo, porém, que encanta ainda mais: o amor que ela sente pelos próprios cabelos. “Pessoal, eu amo meus cachos!”, repete sempre.E essa paixão pelos crespos não está apenas no discurso. Manu lava os cabelos, hidrata-os e os finaliza como se segurasse nas mãos algo muito precioso. A alegria e o carinho com que cuida de seus cachos são contagiantes. Quem tem as madeixas parecidas logo quer fazer igual.Manu aprendeu com a mãe a amar e honrar suas raízes. Embora Milena use os cabelos alisados, ensinou a filha a valorizar os próprios cachos e a cuidar deles. Manu cresceu observando a mãe, professora da educação infantil e estudante de enfermagem, fazer tranças e os mais diversos penteados.Longe das redes sociais, em um shopping de Goiânia, outra relação entre mãe e filha chamou minha atenção. Era fim de tarde. Vestida com o uniforme do trabalho, uma mulher estava sentada na praça de alimentação com uma menina de 5 ou 6 anos, ainda usando o uniforme da escola.As duas haviam comprado sanduíches para lanchar, e a menina pediu para ir até a lanchonete checar com a atendente se poderia ganhar mais um brinde. A mãe autorizou. Enquanto a filha estava fora, pegou o celular. De repente, levou as mãos aos olhos, esforçando-se para não chorar. Não conseguiu conter as lágrimas.“Mamãe, por que você está chorando?”, perguntou a criança, preocupada. Tentando disfarçar, a mulher enxugou rapidamente o rosto e explicou: “Só estou cansada, minha filha. Não é nada”. A menina não se deu por vencida: “Mentira, você está chorando, sim!”A pequena, então, abraçou a mãe com força. Depois, afastou-se, acariciou o rosto da mulher e disse: “Não tem problema ficar triste às vezes, lembra?” Como se devolvesse à mãe algo que já havia ouvido dela muitas vezes, repetiu o mantra e completou: “Se quiser chorar, pode”.Sorrindo, a mãe explicou à filha que ela não precisava se preocupar. Eram apenas “coisas de adultos que nos deixam um pouco chateadas, mas que logo passam”. Com a testa franzida, a menina ouviu atentamente e respondeu: “Entendi, mamãe. De toda forma, se as lágrimas quiserem passear, você tem de deixar!”A mulher soltou uma gargalhada e quis saber que história era aquela de “lágrimas passeadoras”. Ao perceber que a mãe havia se divertido com o termo, a menina riu alto e detalhou: “É assim, ó: suas lágrimas ficam presas dentro dos olhos. Daí, de vez em quando, você precisa soltar as coitadas para elas irem passear, uai!”Ao contrário de Manu e da menina do shopping, fui criada para alisar os cabelos e segurar o choro. Minha mãe queria me dar um sentimento de pertencimento — afinal, nos anos 1980 e 90, os cachos não eram bem-vistos — e força, para que eu seguisse pela vida de forma independente e determinada.As mães nos criam com as referências que possuem e, quase sempre, tentam fazer um pouco melhor do que nossas avós puderam. Elas ensinam as filhas a se amar e a se cuidar. E, às vezes, são as filhas que ensinam às mães que também é possível baixar a guarda, soltar os cachos e deixar as lágrimas passearem.