Eu, infelizmente, sou um poço de ressentimentos. Parece que a minha memória é seletiva e decide armazenar somente as decepções com os outros, as coisas boas ela ignora. Para mim, é claro como cristal a lembrança de quando um ex-amigo foi rude comigo quando tínhamos 13 anos, ou quando uma professora me disse, aos 8 anos, que eu não podia mentir em sala. Ela provavelmente estava certa e eu inventava alguma história mirabolante, nem lembro o que falei, o que ficou gravado no fundo do peito é a raiva de ter sido repreendido na frente da sala. Tento ser leve, alegre, descontraído, mas, a cada desfeita do outro comigo, logo anoto aquele sentimento negativo na parede da memória e o deixo ali, pendurado como um quadro numa exposição. E a galeria de dores vai aumentando ao longo dos anos, o tempo passa e cada vez mais rancores estão lá, no grande salão do padecimento. Um mausoléu permanente instalado no meu âmago.