O certo é dizer Octo ou Oto na citação ao nome do Centro Cultural que fica na Rua 4 do Centro de Goiânia?Eu falo Oto, porque não estamos em Portugal e porque a reeducação pela cibercultura nos ensinou que contacto não existe mais. Nem contactinho. Então falo Centro Cultural Oto Marques, porque o cê é uma consonante que não se impõe na forma como o brasileiro usa o seu idioma e dá passagem à mutação da língua, o que é natural e bem-vindo. Insistir na representação oral das consonantes de personalidade discreta é como defender o arcaico dissimulando um ato de resistência. (Me refiro a uma atitude que não tem a ver com a resistência contida em manifestações culturais como o maracatu rural, o frevo de rua, a catira, a capoeira, o samba de caboclo. Eu falo aqui de outra postura conservadora).É sempre interessante verificar qual é o intuito de quem insiste na manutenção das coisas. A quem serve e interessa a conservação de esqueletos empoeirados. Quem defende a permanência das coisas paradas.Coisas paradas são mais cômodas. Se as placas tectônicas não se movem pode-se dormir depois do almoço. Essa soneca vespertina de que falo não é bem como a siesta, um patrimônio cultural europeu. Não mesmo, porque somos um país colonizado e recolonizado diariamente sempre que alguém dorme no ponto. Uma das portas do hall de acesso ao Centro Cultural Octo Marques permaneceu fechada por mais ou menos 10 anos. Diz a lenda que o acesso foi limitado por questões de segurança e a chave se perdeu para sempre. Do lado de fora o problema não foi resolvido, afinal, é crescente o número de pessoas vivendo nas ruas do Centro de Goiânia. Com frequência o poder público vai construindo desculpas que justifiquem restrições formais e informais e, com o passar do tempo, interdição vira realidade, mas vira lenda também. Como os fantasmas que habitam o estacionamento cinematográfico do Edifício Parthenon Center, onde o centro cultural está instalado.Coisas fechadas são coisas paradas. Elas interessam a quem não se interessa pela energia de transformação. Portas fechadas são uma limitação simbólica que um porrete, um motosserra, água da chuva e uma corrente de ar atravessam. Portas fechadas são uma ilusão no plano material.O medo fechou aquelas portas no hall do Parthenon Center. O medo abriu também. O terror move. #ficadicaAterrorizados pela possibilidade de cozinhar vivos os visitantes da feira e-cêntricazinha, durante o último final de semana, gestores do condomínio do Edifício Parthenon Center concordaram em abrir a porta fechada. Mas o acesso ao elevador para o atendimento a pessoas com mobilidade reduzida permaneceria altamente controlado. Porque não se concede muitas aberturas de uma só vez — as pessoas ficam mal-acostumadas.O chaveiro cobrou caro, embora tenha sido informado de que aquela despesa não estava sendo paga pelo governo do Estado. (Por que os serviços têm um preço diferenciado quando são custeados pelo dinheiro do contribuinte? Isso não faz sentido.)E uma novíssima fechadura só garantiu, por enquanto, a possibilidade de a porta ser novamente destrancada e trancada. Não resultou na ampla abertura das folhas de vidro para amenizar os quase 39 graus que poderiam nos derreter durante dois dias de evento. Obtivemos o alívio que uma fresta de 40 centímetros possibilita, afinal, depois de uma década os trilhos estavam obstruídos com sedimentos indecifráveis. Mas o simbólico da conquista é refresco para a alma e as portas abertas, uma ilusão no plano material. Repare.Tem agora uma nova lenda rolando: na terra cinza acumulada nos trilhos da porta fechada residiram um império de saúvas, dois tatus e minhocas californianas.