Sou um cachorro privilegiado. Faro fino e visão de águia. Robusto, bom de luta. Sei a hora de entrar na briga e a hora de sair. Sei dar golpes doloridos e mordidas fatais. Sou bom na celebração de armistícios para evitar tocaias e escaramuças futuras. Escolho amigos e afasto quem não quero perto de mim. Meus caninos são longos e afiados, que nem os de um javali chefe de bando. E sei exibi-los ao adversário, no primeiro sinal de desconfiança. Meu latido é forte, como se minha boca fosse um megafone. Minha garganta sabe rosnar grosso, mesmo quando estou descansando na sombra ou dormindo. A força de minhas patas é capaz de tontear um lutador de boxe, que nem Mohamed Ali ou Mike Tyson.O cachorro é um animal social. Desde Aristóteles, vêm tentando usurpar esse traço do comportamento canino, para definir o homem. Grande balela. Ser social, por excelência, é o cachorro. Anda pra baixo e pra cima, em matilhas, uns defendendo os outros, simulando lutinhas, ou até brigando de verdade, mas logo dão patas de amigo e a paz se restabelece, imperando a harmonia no grupo. Cachorros não fazem guerra.A vida de cachorro deteriorou-se de uns tempos para cá. Sem perguntar se era do nosso agrado, o homem começou a impor-nos hábitos urbanos de gente metida a besta. Arranjou casinhas de madeira ou de plástico para nós, impedindo que a gente dormisse ao relento, como é de nosso particular agrado, desde os remotos tempos da criação. Impediu-nos de comer osso, medo da gente furar as tripas. Olha só que bobagem! Agora piorou ainda mais. Querem que a gente durma dentro da casa deles, nos apartamentos. Uns exigem que seja na cama, feito um par de pessoas. Passou a nos dar ração peletizada, um negócio fresco e sem graça, parecido com isopor. Tem até casamento e batizado de cachorro! Precisamos tomar banhos, vermífugos e vacinas. Há pessoas que não tomam vacinas, por ideologia, mas obrigam o cachorro a tomar. Existem mais hábitos perversos impingidos a nós cachorros. Obrigam-nos a usar coleira, focinheira, galocha nos dias de chuva, colete e paletó em dias frios. Querem que a gente ande com eles rodeando o quarteirão, para nos exibir qual troféu. Andam com um saquinho na mão, para recolher nossos dejetos, como coisa preciosa. As cadelas, quando entram no cio, usam calcinha. Não dá nem para cheirar com o toque do focinho. O pobre macho precisa ser bom de faro e perceber, pelo vapor do feromônio, o que a fêmea exala. Trepar é temerário. Tem que haver concordância dos donos. Um tutor segura a guia de um lado, o outro, de outro e ainda vão narrando o transcurso, enquanto o ato acontece, deixando a gente avexado pra cachorro.Meu nome é Tiu, seguido de um estalar de dedos. Como eu disse, sou privilegiado. Não tenho dono. Aliás, tenho vários. Explico: sou o chamado cachorro de rua. Nem urbano nem de roça. Um cachorro suburbano. Desde que me entendo por cachorro, vivo zanzando numa comunidade de chácaras, e ninguém ousou me impor coleira, canil, vacina, vermífugo ou ração peletizada. Sou bicho solto, feito o vento das manhãs de maio. Como osso à vontade, sobra das refeições humanas. Ninguém se preocupa com minhas tripas. Sei o fiofó que tenho e o tamanho do osso que posso engolir. Conduzo boa matilha, sob duro regime. Sou o cachorro alfa. Os demais são alfazemas. Adianto meu lado. Roseto as cadelas mais viçosas e aplico meu DNA no futuro. Os chacareiros me adoram. Faço a guarda ostensiva de todo mundo. Não mato animais domésticos, nem deixo meus subordinados matarem. Quando chego a uma casa, eu a defendo, de latidos e dentes, como se fosse o morador mais arraigado. Chego noutra, é em nome dela que ostento a valentia.Sou servidor público, agente de saúde, vereador, conselheiro tutelar, comandante da PM responsável pelo bairro. Que ninguém ouse me colocar coleira, cueca, tomar café sentado à mesa ou dormir na cama, com as pessoas. Me incluam fora. Um honrado membro da sociedade dos cachorros de rua é o que sou.