Conheço uma senhora, de mais ou menos 80 anos, que varre todo santo dia, de manhã e à tarde, o fundo da viela onde mora. Varre tudo, tendo ou não tendo sujeira para varrer. Um dia perguntei: “A senhora gosta de fazer isso?” E ela: “Eu me sinto muito sozinha, não tenho nada para fazer, e assim também ajudo os vizinhos. É bom ver a rua limpinha”. Resposta irretocável, atitude louvável. Mas eu fiquei pensando na parte “Eu me sinto muito sozinha”. Muita gente já falou e vem falando sobre essa solidão que os idosos sentem. E tudo indica que eles sofrem mesmo desse desamparo, mas o que eu acho é que nós humanos somos todos irremediavelmente sós. Vivemos dentro de nós mesmos do primeiro ao último dia da vida, com intervalos de conexões profundas ou superficiais com nossos iguais, o que não depende da idade que por acaso temos. Porém, na juventude, a solidão não pesa tanto - temos colegas, estudamos, trabalhamos ao lado de outros, temos atividades fora... ao passo que, na velhice, esses contatos já não são cotidianos, as pessoas se recolhem a suas casas, numa rotina solitária (já perderam tantos afetos), ou então povoada por gente de outras faixas etárias - filhos, netos -, que vivenciam uma realidade diferente - não foram companheiros do tempo anterior, pregresso, daquele idoso, de suas lembranças mais fundas.