Quando escuto Belchior, sou imediatamente levado de volta para os anos 1990. Um tempo que, para mim, mistura felicidade e apuros na mesma medida. Talvez por isso, hoje, eu me considere um sujeito de sorte. Não é exagero dizer que poderia não estar aqui para contar essas histórias reais de um filho que, diversas vezes, foi salvo pela mãe. Quando criança, voltando da escola com meus dois irmãos, na cidade de Jardim, Mato Grosso do Sul, pegamos uma chuva forte. Em um ponto do caminho, minha mãe precisou atravessar cada filho individualmente. Quando esperava pelos outros, acabei me desequilibrando, caí em uma enxurrada e fui levado pela correnteza. Minha mãe pulou atrás em seguida. Ela já contou essa história milhares de vezes nos encontros familiares. Não sei por que, mas há um certo momento em que eu sou sempre pauta da conversa. Quando minha mãe lembra daquele dia, há algo que ela nunca conseguiu explicar direito: como conseguiu me salvar. Era muita água, barrenta e forte. Coisa de mãe, só pode.