As ruas de um centro não são especialmente perfumadas, tampouco propícias a sorrisos. Há cheiros ácidos, quase todos emanados por corpos humanos, e esgares cínicos e de padecimento. Não são ternos os lugares para onde viramos as costas, porque o vazio, numa cidade, é desdém. Ali, na míngua de lares, nos vácuos desfeitos por gente de passagem apressada, as árvores parecem constrangidas em ficar, embora este seja o único jeito de viver que lhes cabe. Farfalham sob ventos encanados pelos prédios, coam a fumaça dos escapamentos, teimam em oferecer cores ao cinza. É uma postura tão heroica quanto ignorada. Entre o silêncio nervoso das madrugadas e o burburinho dos dias úteis, expressam rebeldia frutificando. Aquela goiabeira fez isso. Cresceu pacientemente até vencer a altura do muro que a condena à solidão num terreno baldio e árido, curvando-se com os galhos sobre a calçada. Aos pedestres, regala uma nesga de sombra nas manhãs ensolaradas, e um anteparo aos pingos quando chove. De janeiro a março, radicaliza na gentileza. Dá goiabas que ninguém via. Até ontem.