A leitura tem um quê de atividade física. Não pelo suadouro evidentemente mental que exige, tampouco porque vai ficando mais prazeroso e fluído com a repetição. A maior semelhança está na capacidade de nos provocar culpa. Não faltam exibicionistas, com livros e músculos expostos, a denunciar a preguiça que nos fixa à ignorância, ao sedentarismo, nos afastando da sanidade de corpo e mente. É preciso estar com guarda emocional muito baixa para se deixar influenciar por esses fiscais da plenitude alheia. Nenhum deles me parece especialmente são. Vejamos essa turma que lê e interrompe o caráter solitário desse prazer, autoproclamando sabedorias nas redes sociais. Vão de um pedantismo feito de adjetivos vazios ao delírio, meio neoliberal, de contar livros lidos, como se um Joyce ocupasse o mesmo espaço-tempo de uma Carla Madeira. Eu também mentiria que não tenho tempo para livros se fosse para obter alguma aprovação deles.