Tem um livro dentro de mim. Como tirá-lo eu não sei. Ele é sobre dois irmãos que armazenam por dois anos o corpo do pai depois que este morre, convivendo com o cadáver cada vez mais putrefato do senhor que um dia foi o progenitor deles. É baseado em um caso verídico. Aconteceu na Ilha do Governador, bairro insular do Rio de Janeiro. Os dois filhos estão presos por omissão de cadáver e, até o momento de escrita desta crônica, não se confirmou se a morte do senhor Dário foi natural ou causada pelos filhos. E, por ser uma história real, fica difícil eu como autor definir o que posso ficcionalizar. Faz sentido ser 100% fiel aos fatos? Ou é melhor eu pegar alguns pilares da história verídica e transformá-la em uma narrativa da minha imaginação? Será que é mais criativo? Será que é mais criativo e menos ético? Difícil pesar esses elementos na balança, abstrações não combinam com materialidade, é como tentar pegar uma ideia com uma rede de pesca.