Há mais de meio século, ainda muito jovem, recém-casado, mudei-me de Goiânia para Porto Alegre, onde eu seguia o curso de Física e minha mulher, o de Engenharia na UFRGS, ambos trabalhando muito para sustentar nossa vida e da mãe dela, viúva com oito filhos. Naquela época, o troco do pãozinho ou do ônibus era valioso para nós. Mesmo assim, movidos por uma fé silenciosa nos livros, compramos em prestações, no lendário sebo Martins Livreiro, a coleção completa de A Comédia Humana, de Balzac, publicada pela Editora Globo. Era usada, mas em ótimo estado e ainda hoje ocupa um lugar de destaque entre meus livros. Foi assim que Paulo Rónai entrou pela primeira vez na minha vida, como organizador, tradutor e comentarista da obra monumental de Balzac. Esse excepcional tradutor me ajudou a fazer a travessia entre línguas e mundos. Foi o criador da idade de ouro da tradução no Brasil.