Eu ainda não tinha um vocabulário sobre o corpo.Quando escrevi meu primeiro romance, o Amores ao Sol (ed. Planeta, 2018), e o personagem principal se relacionava com carinho com outros dois amigos — como homens não fazem —, a editora do livro, em 2017, me devolveu a primeira leitura com orientações como: “Acho o carinho exagerado. Podem pensar que ele é gay”.Num momento da história, o protagonista comenta sobre o amigo peregrino, um homem muito mais velho, mas também mais preparado para caminhar 30 quilômetros por dia até Compostela. Ele descreve o amigo, as pernas torneadas de um homem atlético... E é simplesmente isso: um homem descreve outro homem. Escrevi essa história inspirado em amigos que fiz enquanto caminhei pela Espanha no longo Caminho de Compostela. Joaquin foi meu grande amigo, um peregrino de Granada, atlético. Depois veio Luca, do País Basco, que inspirou o nome do personagem principal, outro peregrino nato.A coisa mais comum a se fazer quando se caminha por tantos dias é acumular amigos. E os que fiz, quase todos, eram mais velhos, mas mais preparados do que eu. Me tratavam quase como filhos. Mas com delicadeza, abraços e presentes: doces para acalmar a garganta, remédios para os músculos das pernas, conversas longas, mas também silêncios extensos enquanto cruzávamos a Espanha.Senti que os amigos espanhóis eram mais corporais: gostavam de andar abraçados, beijar no rosto, dizer palavras amorosas. As amigas também. Mas aqui quero falar dos homens. São relações que mantenho até hoje, uma década depois, com mensagens e fotos trocadas ao longo dos anos. Hoje eu conheço seus novos filhos, netos...Mas estou falando deles, dos homens, porque me lembrei desse caso com a editora, que me disse que o carinho estava demais, que os leitores poderiam pensar outras coisas sobre o personagem principal. “Outras coisas.”É claro que os leitores poderiam pensar como a editora estava pensando. É claro que poderiam ser homofóbicos, que poderiam ser machistas. Com medo de contrariar a editora do meu quinto livro, mas do meu primeiro romance, ainda assim, banquei a literatura inspirada no que foi vivido entre mim e eles.Foi difícil encontrar o meu vocabulário do corpo. Palavras escassas, adquiridas com machismo, violência, dificuldade em dizer, em tocar nos tabus, no sexo.A literatura me deu novas palavras, que me deu também novas conversas que fiz em família, provocações sobre os desejos que nunca foram ditos entre nós, sobre as palavras que não usávamos, sobre paixões vividas pela minha mãe.No meu segundo romance, Não Acorde os Monstros (ed. Rocco, 2025), a linguagem do sexo muda durante a história: começa de forma delicada e vai se transformando enquanto os monstros acordam. Quais monstros? Os da família, dos homens violentos que as mulheres e os filhos tinham de enfrentar. O vocabulário então fica mais seco e rude. Incomodou meu irmão quando leu o livro. Ele quis saber o porquê de tantas palavras “explícitas”. Achei o incômodo bom. Me lembrou da editora que se incomodou com os homens.É para isso que, no fim, escrevo: para ligar as luzes de alguns cômodos que ainda não conhecemos em nós. E para acender os incômodos também.