Saiu da Estação da Luz e dobrou à esquerda, enquanto o mundo, como de costume, adotava a direção contrária. Ruía o Muro de Berlim, a Cortina de Ferro e, dali a pouco, tombaria a União Soviética. Aos 30 anos, caminhava em passos firmes ao som de Like a Prayer, que ecoava de uma das lojas da José Paulino. Ainda ouvia bem, porque sentia também no tímpano o coração acelerar. Era o primeiro dia de emprego. Quando parou na altura do número 200 da Prates, sua vida, em novo movimento na contramão do mundo, estaria dividida em duas. Uma se daria desperta durante o sono alheio; outra adormeceria na agitação geral.Na portaria, sacou logo de cara que o turno da madrugada cobra uma cota de sacrifícios, enfrentados com um misto de necessidade e bravura. As pálpebras pesam naquele ambiente claustrofóbico, pouco ventilado e à meia-luz. E pensa que, aos novos no posto, como ele, os condôminos talvez demonstrem menos condescendência quando se perde a queda-de-braço com o sono.O esforço de se manter vigilante é essencialmente físico, constatou pelo cansaço quando, ao amanhecer, caminhava, agora em passos mais hesitantes, de volta à estação. Ainda ouvia bem, porque retumbava a algazarra, ora alegre, ora relutante, das crianças levadas pelos pais à escola. Mas algo além do corpo dele era mobilizado nas madrugadas.Se piscava, se cabeceava, era sempre sob a angústia do constrangimento. É homem dado a silêncios, lhe custaria dar explicações por se render a tão banal necessidade, tendo ele outras necessidades mais urgentes amarrando-o àquele trabalho, naquele horário. Se o dia corre numa linearidade bruta e barulhenta, a noite se apresenta em quietudes instáveis, que ele aprendeu a identificar. Um trovão, o urro de um dependente químico, a sirene de uma ambulância: sons nada musicais irrompem para quebrar a ilusão da solidão.Assim, nessa peleia corpórea e emocional, as madrugadas foram se sucedendo. Veio um contracheque numa outra moeda, que o país precisou inventar para que o salário, dele e de todos, não evaporasse.Noutra esgrima contra o torpor soube, pela gritaria da vizinhança, que o Brasil havia sido campeão do mundo, dois gols do Fenômeno. Uma das crianças levadas pelos pais à escola pela manhã cresceu, entrou para o conselho do condomínio e parece que está questionando a serventia de uma portaria 24 horas. Outra, que por ali passava com bigode de Nescau, deu para voltar bêbada, sempre um pouquinho antes do sol nascer.Também testemunhou o fim do desejo de boa noite, porque, de umas madrugadas para cá, todos passavam cabisbaixos, hipnotizados pelo celular. A epidemia de desatenção deixou gente como ele ainda mais invisível, mas isso lhe foi conveniente. Agora, preso a um aparelho de audição, as vozes chegam sem produzir sentido e as conversas, antes raras, se tornaram penosas. Descobriu que as coisas da saúde se complicam depois de mais de 13 mil noites insones.Decidiu parar, não sem antes tentar um acordo para ser demitido e embolsar a multa, que soaria como um bônus por uma existência maldormida a serviço daquela gente toda. Quando não rolou, domou a mágoa lembrando do ensinamento da avó: “Nunca saia de um lugar pior do que entrou”. Saiu do prédio, dobrou à direita, mesmo sentido do mundo, passos vacilantes de um senhor arqueado pelos 66 anos, mas não totalmente em sintonia com o rumo de uma humanidade dividida por outros muros e cortinas. Tudo o que ele quer é, depois de uma noite de 36 anos, fundir as suas horas que restam com as horas de quem ama.