Na semana passada, peguei uma virose daquelas. Mesmo assim, fui para a cozinha preparar meu café da manhã. Enquanto separava a abobrinha ralada e os tomates-cereja para acrescentar à omelete, minha diarista observava a cena e disparou: “Você gosta de inventar, né?”. E completou, aos risos: “Fosse eu, já tinha jogado óleo na frigideira, mexido os ovos de qualquer jeito e comido puro mesmo!”Lembrei-me de quando morava na Bélgica e de um estudante que vivia na mesma república que eu, que fez um comentário parecido. Como ele deixava a cozinha caótica toda vez que ia preparar uma refeição, combinamos que eu cozinharia e ele compraria os ingredientes e lavaria a louça. Numa noite, havia apenas macarrão instantâneo e carne moída congelada para o jantar.Depois de pensar um pouco, pedi que ele fosse à loja de conveniência do paquistanês, próxima à república, comprar molho de tomate. Peguei uma cenoura e uma cebola com a dona da casa. Quando ele voltou, perguntei se ainda havia vinho da garrafa que abrimos na noite anterior. Ele respondeu que sim e passou a me olhar intrigado.“Você está preparando um molho à bolonhesa com vinho, é isso mesmo?”, perguntou, surpreso. Quando confirmei, ele não se conteve e comentou, gargalhando: “Minha colega brasileira, você adora uma comida enfeitada, hein?”. Diante do aroma que saía da panela, decretou: “Espere aí que vou voltar ao paquistanês para comprar uma massa de verdade. É um sacrilégio comer esse molho com macarrão instantâneo!”.Pois é, adoro uma comida “enfeitada”, como dizia o amigo belga, ou uma “invenção” na cozinha, como constatou minha diarista. Não vejo isso como defeito. Creio, inclusive, que seja uma das melhores qualidades que herdei da minha mãe e da minha avó. Fui criada em uma casa onde a comida não era apenas aquilo que enchia o estômago, nos mantinha de pé ou compunha a dieta.Na minha família, comida era sinônimo de afeto, criatividade, união e partilha. Tenho um álbum com uma foto minha, ainda bebê, tomando banho dentro de uma bacia na cozinha, enquanto minha avó preparava a massa do pão sírio. Com essa mesma massa, ela também fazia rosquinhas doces com gergelim e esfirras de carne e de escarola com cebola.Cresci ajudando minha avó a passar a mistura de carne moída e trigo na máquina várias vezes, até que ficasse fina o suficiente para, ao ser aberta na mão e recheada, resultar em um quibe — frito ou assado — crocante por fora e suculento por dentro. Adorava trançar as rosquinhas doces e rechear as esfirras, formando os triângulos que iriam ao forno.Lembro-me, com riqueza de detalhes, dos meus dedos machucados ao ralar a batata e deixá-la de molho para minha mãe fritar. Ela se recusava a comprar batata palha industrializada. Até o brigadeiro ganhava contornos diferentes. Segundo ela, para deixar o doce mais macio e saboroso, era preciso acrescentar ovos, licor de cacau — ou conhaque —, mel e um pouco de leite. Ficava divino.Era como se a comida fosse sagrada demais para ser reduzida a uma proteína, um carboidrato ou uma fibra, usada apenas para bater metas de emagrecimento, como muitos fazem hoje. Como se o momento de sentar à mesa fosse uma grande oportunidade de conversar, contar nossas histórias, trocar experiências e saborear algo que não precisa ser sofisticado ou caro para ser delicioso.Confesso ao leitor: fico para morrer quando vejo alguém comendo frango cozido puro com batata-doce. Já imagino grelhar o frango e “enfeitá-lo” com cheiro-verde, tomate picado, cebola e páprica. Penso na batata-doce cortada em rodelas finas, temperadas com sal grosso e azeite, assadas até virarem chips crocantes. Assumo: não nasci para fazer comida básica. Sou uma perua na cozinha.