Distraída para a vida, e assim também para a morte, sou dada a surpresas e espantos. Mesmo quando os sinais são óbvios, ainda sinto no corpo o impacto do susto se, enfim, me permito ver. Então, esteve sempre ali, tão claro e real, mas não vi, não quis ou não consegui ver. Aí me atormento: por quê? Qual o motivo dessa névoa proposital embaçando os fatos? De onde tamanha covardia para não encarar a realidade?Vinha mais uma vez aos tropeços diante dessa cobrança de discernimento, porque a demora em enxergar leva a estancar em situações nada favoráveis, a não agir quando uma atitude é fundamental para melhorar o fluxo da vida. Já estava sonolenta, na cama, sem ânimo sequer para supor angústia de dúvidas, quando uma atenuante emergiu na mente: Édipo Rei.Não disse antes da dificuldade diante do já explícito? Está lá na tragédia clássica esse porquê que tanto atormenta, no mito que funda o humano, nada tão peculiar, portanto, dessa Maria ninguém que se afunda em intermináveis interrogações a cada novo desencontro.A obra de Sófocles é pilar da cultura ocidental, essa mesma que impregna nosso olhar até quando não nos damos conta disso. Édipo, rei de Tebas, se depara com o horror ao descobrir quem realmente é. Também aqui não faltam alertas de oráculos, advertências. Mas o destino se impõe, fatal. Da Antiguidade para os conceitos básicos da psicanálise, em Édipo a castração estruturada por Freud.Viu só, criatura, que não é só com você?, me diverti com a pretensão ridícula de meus dilemas existenciais.“... digo que tu, mesmo tendo olhos, não vês o mal em que estás, nem onde habitas, nem com quem resides. Acaso sabes qual é tua origem?”Édipo não suporta a verdade de ser assassino do pai, do incesto, da mãe que se mata ao saber que a profecia se cumpriu, e perfura os próprios olhos. O que fazer quando as ilusões desmoronam em trágico desfecho e com elas afundamos no vazio desolador de nossa condição humana?Vamos agora a esse diálogo no filme Drive my Car (2022), do diretor japonês Ryusuke Hamaguchi, com roteiro baseado em dois contos do grande escritor, também japonês, Haruki Murakami - Drive my car e Sherazade. E como citação pouca é bobagem, as aspas a seguir são de Tio Vânia, deTchékhov, peça encenada pelo protagonista do filme, que acaba assumindo o papel principal ao aceitar o desafio desse mergulho, após uma viagem íntima no luto pela perda da mulher e em autopunição por não ter conseguido ver nem agir enquanto podia, mascarando terrível dor.Tio Vânia: “Sônia, eu sou um miserável. Se você soubesse como sou miserável. O que podemos fazer?”E Sônia responde: “Devemos viver nossas vidas. Sim, viveremos, tio Vânia. Nós vamos viver os longos, longos dias. E as longas noites. Vamos suportar pacientemente as provações que o destino nos enviar. Mesmo que não possamos descansar. Vamos continuar a trabalhar para os outros agora e quando envelhecermos. E, quando nossa última hora chegar, iremos em silêncio. E no grande além, diremos a Ele que sofremos, que choramos. Que a vida era dura. E Deus se apiedará de nós. Então você e eu veremos aquela vida brilhante, maravilhosa, onírica diante de nossos olhos. Vamos nos regozijar e com sorrisos ternos em nossos rostos, olharemos para trás, para nossa tristeza de hoje, e então, finalmente, vamos descansar. Eu acredito nisso. Eu acredito nisso do fundo do coração. Quando essa hora chegar, vamos descansar”.