Mais alguém tem a impressão de que somos figurantes num filme de terror? De que ao nos virarmos para o lado, de repente, vamos topar com a máscara do Jason ou com o sorriso pérfido do Chucky? No nosso caso, porém, é pior, porque não é ficção. Em nossa Hora do Pesadelo cotidiano, o psicopata está mesmo armado, ameaçando outros motoristas no trânsito, estapeando o entregador que não quer subir ao apartamento do indivíduo ou vomitando ameaças e preconceitos em suas redes sociais.Essas vilanias, que sempre existiram em sociedades como a nossa, arraigadas em um longo histórico de exploração e desigualdade, vão ficando mais recorrentes e nos anestesiando. O que constato ultimamente é um explícito orgulho em fazer o que é deplorável. Multiplicam-se as Samaras que saem dos poços da ignorância para nos puxar para suas trevas particulares. Proliferam as Annabelles que querem nos tragar para suas sombras de desinformação e violência. Não faltam invocações do mal, que podem se realizar em atos estúpidos, como beber detergente e rezar para pneu, mas também em atitudes muito mais graves e nocivas, como a tentativa de normalizar trabalho infantil ou pregar, sob o discurso religioso, a submissão das mulheres aos seus maridos.Os personagens são variados nessa galeria de horrores. O ator que dá curso para ensinar o homem “a ser macho” e recuperar a virilidade. O apresentador de TV que dia sim, outro também, utiliza uma concessão pública não só para ficar milionário, mas também para disseminar discursos de ódio contra minorias, alimentando a homofobia e a transfobia, isso num país notório por seus altos índices de assassinatos de pessoas gays e trans. O empresário que não deseja que seus empregados tenham um pouco mais de qualidade de vida, mais tempo de lazer e descanso, mas reclama quando eles adoecem por estafa ou outros males causados pelo trabalho e, claro, pela aventura diária de chegar ao serviço, um cálculo sempre desprezado por quem mora em regiões nobres e centrais e tem carro para se locomover com conforto e rapidez.Mais do que vilões, essas verdadeiras assombrações vão ganhando terreno e espaço público para expressar seus abusos, suas visões de mundo distorcidas e reacionárias, para advogar em prol do retrocesso e da supressão de direitos. São aparições malignas que se orgulham por atacar a mínima civilidade, gente com falas machistas, odiosas, ultrapassadas, mas que o tempo inteiro saem de vãos de escadas, das sombras do quarto, de debaixo de nossa cama para puxar nosso pé. Eu, pelo menos, tenho levado cada vez mais sustos com o que surge sabe-se Deus de que bueiro para pregar, muitas vezes com um cinismo que não esconde o autoritarismo, o que é “certo”, como deve ser “a pessoa de bem”, o que estaria, em suas óticas infames e limitadas, “sob a graça de Deus”. Todas as vezes que vejo um líder religioso usar a fé para ficar rico ou interferir na política em prol de seus próprios interesses, eu me lembro daqueles demônios do filme Constantine e me benzo, pedindo proteção às legiões do fanatismo.No Brasil paralelo dessa dimensão fantasmagórica, onde Maria da Penha, a mulher cujo marido tentou matá-la duas vezes e ficou paraplégica por conta da violência, é a culpada e não a vítima, os ectoplasmas do absurdo, da desumanidade, da ausência do bom senso levitam à vontade. Pior que isso, eles invadem cada vez com mais frequência nossa vida, nossas instituições, nossa paz. Exorcizar esses demônios que expelem o líquido verde e fétido do desmazelo com quem mais precisa, com os direitos alheios, com a existência que não lhe agrada é uma missão urgente. Vamos precisar de muita coragem e água benta.