Quando me mudei, não me incomodei com o prédio que ficava de frente à minha varanda. Uma construção recém-terminada, ainda sem moradores. Nos primeiros dias, vi pintores do lado de lá fazendo acabamentos nos apartamentos que seriam entregues em breve. Eles apareciam uma hora do dia, em alguma das muitas janelas que eu conseguia ver do meu apartamento, pintavam os cômodos e eu me impressionava como estávamos próximos. Conseguia assistir a tudo com muita nitidez. Quando eles iam embora, antes do anoitecer, deixavam o prédio apagado, vazio, sem barulho, sem vida. Por quase três meses, me acostumei a tocar a rotina sem me preocupar com vizinhos, sem pessoas do outro lado, a não ser os pintores que, de vez em quando, ainda voltavam. Não me importava, inclusive, em andar de cueca pela casa. Meu apartamento era pequeno. Uma sala em “L” dividia o ambiente em dois cômodos: um para a TV, outro para o escritório. Ao lado da TV, a varanda, dividida por uma porta de vidro grossa, que eu mantinha sempre aberta; pois a varanda também era fechada por vidros, com uma fresta que eu jamais fechava. Do escritório, eu acessava a cozinha, o quarto e o banheiro. A cozinha era estreita, mas funcional: um corredor com espaço justo para a geladeira, a pia, poucos armários embutidos e, no fundo, uma janela, um tanquinho e um espaço para a máquina de roupas. Saindo da cozinha, do lado direito ficavam as portas do quarto e do banheiro.