Vamos começar com algumas perguntas que podem ser incômodas. Quantas escritoras você leu no ano passado? Se leu algumas, o número de livros escritos por mulheres é ao menos equivalente ao de obras produzidas por homens? Na escola, quantos autores homens você estudou? E quantas eram mulheres? Quando falamos em movimentos literários, como Romantismo e Modernismo, os primeiros nomes que vêm à mente são de homens ou de mulheres? Você saberia dizer qual foi a primeira mulher a publicar um livro de ficção no Brasil? Você conseguiria citar, de forma imediata, dez nomes de autoras brasileiras e suas respectivas obras? Depois de todas essas questões, uma última pergunta: as autoras brasileiras, historicamente, tiveram protagonismo ou foram “apagadas”? Para tudo isso há respostas evidentes. São muitos os aspectos que revelam um quadro nada positivo quanto ao machismo que, sistematicamente, operou e ainda opera na produção literária nacional. A proporção de autores homens com destaque é muito superior à de mulheres. Basta citarmos um exemplo claro: a poesia. O século 20 nos deu escritores magistrais nesse gênero: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Mario Quintana, Ferreira Gullar, Oswald de Andrade, Patativa do Assaré, Affonso Romando de Sant’Anna, Manoel de Barros, Thiago de Mello, Paulo Leminski e por aí vai. Um grupo que inclui, quando muito, meia dúzia de escritoras com essa mesma visibilidade: Cecília Meireles, Cora Coralina, Hilda Hilst, Adélia Prado, Ana Cristina César.