Como um grande porta-retrato ou uma película de cinema, o palco se transforma em uma cena que poderia ser vivida na memória de avós e avôs, como naquelas antigas fotografias de família que toda casa tipicamente goiana possui, pregadas em algum cômodo. No espetáculo Registro, de 1997, a Quasar Cia. de Dança levou para diversos cantos do mundo o retrato visual sobre memória, identidade e cultura de Goiás.Expressa em movimentos, música, cenografia e iluminação, a dança contemporânea criada em Goiás reafirma o dom do goiano por passos sincronizados e a veia pela inovação cênica. A Quasar, que em 2021 faz 33 anos, é apenas uma entre diversos grupos de dança que destacam o dom de diversos coreógrafos, bailarinos, músicos e técnicos pela diversidade de cinesia e o hibridismo da cena cultural.“A Quasar diz muito sobre ser goiano na relação pessoal entre o jeito de se trabalhar cultura e na forma com que pensamos dança contemporânea. E isso resulta nos nossos trabalhos finais”, destaca o coreógrafo Henrique Rodovalho. Em Sobre Isto Meu Corpo não Cansa (2014), por exemplo, o diretor colocou a goianidade em cena no momento em que destacou vozes como a da cantora goiana Grace Carvalho, que surge no meio do palco entoando seus versos autorais. O próprio Rodovalho entra em cena munido de violão.Já em Por Instantes de Felicidade (2007), Rodovalho traz de volta uma leveza e um colorido que fez parte de trabalhos iniciais da Quasar em uma guinada pessoal do coreógrafo por Goiás. Os vários espetáculos da companhia estão disponíveis gratuitamente no YouTube. “O ser goiano não se concretiza visualmente no trabalho ou tecnicamente na linguagem, mas estabelece um lugar muito pessoal, íntimo, na forma de realizar os trabalhos, em lidar com as pessoas, seja nas turnês. Porque é a nossa identidade, o nosso jeito está presente em tudo que fazemos, sobretudo no trabalho final”, reflete.A identidade goiana destacada pela Quasar Cia. de Dança foi apresentada em 25 países, entre Ásia, África e Europa. Foram mais de 25 espetáculos apresentados ao longo de 31 anos, com mais de 80 bailarinos que passaram pela companhia, de diversas partes do mundo, o que acabou criando um intercâmbio nas artes. No contexto da cultura brasileira, a Quasar, autenticamente goiana, conquistou três vezes o importante Prêmio Klauss Vianna.“Desde o começo, até a construção da Quasar criada por um grupo de jovens com pensamento diferente busca uma identidade um pouco mais própria, mas que tem muito a ver com diversos movimentos culturais goianos. E isso diz muito sobre o lugar onde habitamos”, aponta Rodovalho, que se prepara para participar do projeto Noite de Gala, com a exibição de vídeos de dança de várias partes do mundo. O coreógrafo, mais uma vez, é representante de Goiás.CerradoA aglutinação cultural, formação identitária de Goiás e o Cerrado ilustram Mazombo, último espetáculo montado pela Fohat Cia. de Dança. No palco, bailarinos desenham em passos que remetem às cascas grossas, os troncos retorcidos e as folhagens secas do ambiente que ilustra tão bem o jeito goiano. “Mazombo significa filhos de europeus nascidos no Brasil e uma das canções do espetáculo diz que somos mazombos em pleno Goiás”, explica a coreógrafa Ariadna Vaz.Em um material audiovisual criado pelo diretor Thiago Barbosa, bailarinos goianos da Fohat dançam as canções de Mazombo em diversos cenários de Goiás, em contraste com os arranha-céus enfileirados de Goiânia e as matas do Cerrado. A videodança está disponível no YouTube. “O espetáculo fala da cultura caipira e, ao mesmo tempo, metropolitana, do nosso Estado. Também destaca o Cerrado que é queimado, mas renasce, com diversas canções que ilustram o Centro-Oeste, Goiás e Goiania”, aponta Ariadna.Histórias cruzadas As memórias da infância, as paisagens da cidade natal, Goiânia, e a linguagem aprendida nos tempos da criação do Centro Cultural Martim Cererê, são combustíveis adicionais para os espetáculos criados pelo diretor e coreógrafo goiano Duda Paiva. O profissional mora há duas décadas em Amsterdã, na Holanda, mas leva no peito e nos trabalhos apresentados a identidade goiana.Um de seus últimos espetáculos premiados, Blind (em tradução literal, Cego), volta aos tempos em que o artista morava na capital goiana e precisou passar por inúmeras cirurgias nos olhos em decorrência de problemas de visão. A premiada peça foi apresentada em diversos palcos mundiais, como Nova York, nos Estados Unidos, Paris, na França, e no Festival Internacional des Arts de la Marionnette, na cidade de Saguenay, no Canadá.Aos pés de Cora “Vive dentro de mim a mulher da vida”. O verso da poetisa Cora Coralina foi um dos motes da Cia. Catavento para a criação de Atravessar-se. O trabalho foi livremente inspirado na vida e na obra da vilaboense a partir de um elemento forte de seus poemas, a travessia. “Uma outra passagem que nos intuiu a pensar sobre caminho e travessia é: quebrando pedras e plantando flores. Talvez, esse seja um convite e uma contribuição que Cora nos deixa, sua maneira de perceber e encarar a vida: uma grande travessia”, aponta o diretor Felipe Nicknig.O trabalho ganhou um registro audiovisual em curta-metragem inspirado na memória dos quintais e becos da cidade de Goiás. Há diversas linguagens no material: circo, artes visuais, música e teatro, dança contemporânea e performance. “Uma linguagem peculiar, um trançado visual que envolve o circo, a música e o audiovisual. O circo e a vida nos seus movimentos. A pausa aqui é intervalo de travessias. O movimento cria o instante em que a mulher é atravessada pelas memórias e esquecimentos tecendo significado ao caminho”, destaca Nicknig. O hibridismo da cena toma conta do espetáculo criado pela Cia. Catavento, disponível no YouTube.“Revelamos o singelo caminho de uma mulher que na travessia se forja da terra, de coragem, de medos, de angústias e memórias. Menina, mulher e velha, são atemporais e narram uma travessia arriscada inspirada na antiga capital de Goiás”, explica o diretor. A proposta do espetáculo, de acordo com Nicknig, é de prestar uma homenagem a Goiás destacando uma das figuras que mais ilustram o povo e a memória goiana.-Imagem (Image_1.2246741)-Imagem (Image_1.2246743)-Imagem (Image_1.2246729)-Imagem (Image_1.2246730)