-Imagem (Image_1.1324193)"É uma honra estar em Goiânia, terra da Quasar.” A frase da coreógrafa Deborah Colker, que traz para a cidade, nesta quarta-feira (9) e quinta (10), seu novo espetáculo, Cão Sem Plumas, revela a admiração da artista reconhecida internacionalmente pela companhia goiana. Assim como a Quasar, a Cia. de Dança Deborah Colker não ficou imune à crise. Mas Colker ensina que é preciso resistir atento e forte. Foi na força dos ribeirinhos do Rio Capibaribe, retratados no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, que ela buscou inspiração ao elogiado Cão Sem Plumas. Foram três anos de estudos, vivências, trocas de experiências e ensaios para transformar as palavras do poeta em dança e cinema. No palco, 13 bailarinos são homens-caranguejos, cobertos por lama. “Conheci o poema quando era jovem, nos anos 80, e ele voltou às minhas mãos em 2014. Li, novamente, e fui arrebatada pela beleza”, explicou Deborah ao POPULAR. Por 24 dias, em novembro de 2016, ela, os bailarinos e uma equipe de profissionais que incluiu o cineasta Cláudio Assis, de Amarelo Manga, viajaram pelas entranhas do Capibaribe. A imersão resultou em um espetáculo em que dança e cinema se encontram - um filme dirigido por Deborah e Assis é projetado no cenário - para encenar a dureza de vidas repletas de aridez e lama, metafóricas e reais. Na entrevista, Colker falou sobre criação, comentou a recepção da crítica e sobre como recebeu a notícia da grave crise da Quasar. Confira trechos da conversa.---/---Quando nasceu a vontade de transformar a obra de João Cabral em um espetáculo?Logo após estrear Belle, espetáculo de 2014 livremente inspirado no romance Belle de Jour, de Joseph Kessel, eu já estava pensando no próximo trabalho quando ganhei o livro que tinha três poemas do João Cabral de Melo Neto: O Cão Sem Plumas, O Rio e Morte e Vida Severina. Já tinha lido O Cão Sem Plumas na década de 80. Fui casada com um pernambucano, pai dos meus filhos e tinha tido contato com o vocabulário cabralino que todo mundo conhece por Morte e Vida Severina, mas já tinha tido um contato anterior. Reli O Cão Sem Plumas durante um congestionamento e cai em lágrimas. Foi arrebatador. Naquela hora, decidi montar o espetáculo.Por que escolheu o diretor Cláudio Assis para a parceria no projeto e como foi misturar dança e cinema?Somos amigos há muito tempo. Ele já tinha me convidado para fazermos algo sobre o Rio Capibaribe, mas não tinha dado certo. Quando decidi montar Cão Sem Plumas chamei o Cláudio que trouxe o Jorge Du Peixe e Lirinha, que fazem a música, e outros artistas pernambucanos maravilhosos. O processo de criação durou três anos. Antes de filmar, em novembro do ano passado, estudamos, lemos o poema, participamos dos ensaios. Assino o filme com o Cláudio e ele assina a dramaturgia do espetáculo. É um trabalho muito casado.Como foi para os bailarinos estar em contato tão próximo com as comunidades que margeiam o rio Capibaribe?Tenho essa companhia há 24 anos, nunca vi bailarinos dançarem com tanta consciência. Dançarem sabendo, comprometidos, construindo o corpo de um homem-caranguejo e caranguejo-homem que vai pelo movimento dizer as palavras de João Cabral, tão importantes e intensos. O contato dos bailarinos com a comunidade ribeirinha foi fundamental. Passamos três semanas dando oficina. Aprendemos tanto quanto ensinamos. Chegou uma hora que não dava para saber quem era aluno e professor. Entramos naquela lama, na terra craquelada, no mangue, viramos caranguejos e chafurdamos. Foi uma vivência importante. Lá o poema afundou na lama e passou a ser nosso corpo e voz.Por que acha que a crítica classificou Cão Sem Plumas como seu espetáculo mais brasileiro?Sou brasileira sempre. Tenho uma visão bem brasileira inclusive quando me inspiro em autores de fora. Aceito essa colocação da crítica. O tema é brasileiro, o espetáculo é brasileiro e o João Cabral é brasileiro. Fui filmar em terras, águas e lamas brasileiras. Sempre falo que esse poema é atual e universal. Estamos em situação pior do que a que estávamos em 1950, quando ele foi publicado. É universal porque, apesar de falar do Capibaribe, está falando de todos os rios.Passado tanto tempo, a obra de João Cabral ainda é muito atual quando fala da fome, da miséria e da seca. Por que as coisas demoram tanto no Brasil?Se existisse vontade política, a seca no Brasil já teria terminado. Existem lugares piores no mundo onde o problema já foi resolvido. Não querem resolver. Lucram com a tragédia. Vivemos em um País complicado. O Cão Sem Plumas fala de um Brasil trágico, mas rico. Um País de um ribeirinho saqueado e que sofre descaso absoluto, mas que é teimoso e resistente. É um Brasil louco e contraditório. Com tudo para brotar vida e alegria.Como você recebeu a notícia sobre a crise financeira que passa a Quasar e qual sua relação com os artistas goianos?Estou também com esse problema. Acabei de saber que um dos nossos patrocínios foi cortado pela metade. No ano passado, tinha 18 bailarinos. Agora estou com 13. Torço sempre para que nenhum se machuque. Mas bailarinos se machucam. Fico arrasada pela Quasar, adoro o Henrique Rodovalho. É uma companhia importantíssima para o Brasil. Mas a gente tem que brigar, não podemos parar e temos que resistir. É hora de ser meio homem-bicho, homem-caranguejo e lutar para poder trabalhar.---/---O Cão Sem Plumas, o poemaPublicado em 1950, o poema acompanha o percurso do Rio Capibaribe, que corta boa parte do Estado de Pernambuco. Mostra a pobreza da população ribeirinha, o descaso das elites, a vida no mangue, de “força invencível e anônima”. A imagem do “cão sem plumas” serve para o rio e para as pessoas que vivem em seu entorno.---/---SERVIÇOEspetáculo: Cão Sem PlumasData: Nesta quarta (9) e quinta (10), às 21 horasLocal: Teatro Goiânia. Av. Tocantins esq. c/ Rua 23, 252, CentroIngressos: Plateia I – R$ 120 (inteira); e Plateia II R$ 100 (inteira)Informações: 4052-0016