Uma obra absolutamente fundamental para a literatura brasileira mas que nem sempre foi tratada apenas com critérios estéticos por seus herdeiros. Afinal, parentes, parentes, negócios à parte. Foi assim que nas últimas décadas se desenrolaram as negociações em torno do espólio de João Guimarães Rosa, diplomata e médico que reinventou o jeito de escrever em português e legou para a posteridade um conjunto literário único, composto por clássicos do porte de Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile. Com novos acordos a esse respeito, seus trabalhos são agora revisitados.Selos poderosos se lançaram em uma espécie de corrida para conseguir os direitos de publicação dos livros, algo cada vez mais raro no mercado editorial nacional. Os trabalhos de Rosa, porém, são vistos como joias da coroa e não é todo dia que um tesouro com esse valor muda de mãos. Por muitos anos, a editora Nova Fronteira concentrava os lançamentos com a assinatura do autor mineiro desde 1984. Isso mudou ano passado, quando o contrato com a empresa acabou e o espólio foi dividido entre três ramos da família, que não mais negociaram os direitos de forma conjunta.O selo Global correu por fora e desbancou favoritos para conseguir os direitos da maior parte dos livros, que estão sob a administração dos herdeiros do lado das duas filhas do primeiro casamento de Rosa. Agnes (que morreu em 2016) e Vilma Guimarães Rosa, que tem 87 anos, sempre geriram com mão de ferro o legado do pai. São famosos os entreveros que elas tiveram na Justiça para proibir que a imagem de Rosa fosse usada, mesmo em exposições que o homenageavam. Elas conseguiram proibir até a publicação de uma biografia do autor, escrita pelo goiano Alaor Barbosa.Um ataque cardíaco matou Guimarães Rosa em 1967, mas, por conta das disputas em família, o inventário permanece aberto até hoje, correndo em segredo de justiça. Ainda que as partes envolvidas já tenham chegado a uma partilha consensual sobre a maior parte das obras do escritor – isso não quer dizer que elas se entendam –, os direitos dos inéditos que ele deixou permanecem em litígio. Em vários episódios do passado, Vilma e Agnes, filhas da primeira união de Rosa com Lygia Cabral Penna, demonstraram pouco apreço a Aracy de Carvalho, segunda esposa de Rosa.A Aracy, Rosa dedicou o romance Grande Sertão: Veredas e deixou expresso que o livro “era dela”, dando-lhe os direitos inequívocos sobre o livro, cuja permissão de reedição foi negociada agora por um neto dela, separadamente. Eles se conheceram quando Aracy, desquitada e com um filho, trabalhava no Consulado do Brasil em Hamburgo, na Alemanha. Rosa era o cônsul e Aracy, sua secretária. Eles iniciaram um romance no final dos anos 1930 e permaneceram juntos até a morte do autor, em três décadas de união nas quais ele desenvolveu praticamente toda a sua criação literária.A Companhia das Letras, que tentou abocanhar os direitos sobre toda a obra do escritor, conseguiu levar para seu catálogo aquela que é considerada a obra-prima do escritor. Com isso, pela primeira vez, dois grandes selos estão dividindo a prerrogativa de publicar Rosa. Quando estava vivo, a José Olympio era a casa do autor mineiro. Depois, a Nova Fronteira e a Nova Aguilar publicaram seus principais livros, incluindo obras póstumas. Em todos esses anos, as hostilidades entre os dois grupos de herdeiros continuaram. E elas têm tudo para vigorar por algum tempo ainda.