Vivendo com intensidade esta Copa do Mundo de 2026, continuo firme na torcida pela Seleção Canarinho, quando me caiu às mãos a antológica crônica “O grande sol do escrete”, escrita em 1970 por Nélson Rodrigues, onde ele afirma: “Disse o poeta Rainer Maria Rilke que a glória, o que chamamos glória, é a soma de mal-entendidos em torno de um homem e de uma obra. E não só a glória. Também a desonra pode ser outra soma de mal-entendidos. Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado...” Essa citação poética é o mote para a fina tessitura de Nélson, que costura literatura e esporte, numa ode ao Rei do Futebol, Pelé, a quem o cronista carinhosamente intitula de “o divino crioulo”. Ali, ele também flagra os equívocos que acontecem no limiar entre fatos que inauguram a estátua ou desencadeiam a vaia. No caso do torcedor apaixonado, este parece o normal: andar sobre o fio da navalha.