A escritora Penélope Martins queria que a protagonista de seu livro Minha Vida Não É Cor de Rosa passasse pelas experiências habituais das adolescentes. A descoberta da autonomia, o primeiro namorado, a mudança de escola – o primeiro assédio. Ainda nas primeiras páginas do livro, a garota de 14 anos é abordada por um homem que, dentro de um carro, finge que vai pedir informação e mostra a ela suas partes íntimas.“Na primeira vez em que fui vítima desse tipo de situação, eu tinha uns 9 anos”, diz a autora. “E, se converso sobre esse tema com qualquer grupo, metade das mulheres levanta a mão para dizer ‘eu também, eu também’.”O livro, que foi premiado pela Biblioteca Nacional no ano passado, é um dos que abraçam o desafio de falar sobre assédio sexual a um público jovem, em um país onde, a cada 15 minutos, uma criança ou adolescente é vítima de violência sexual, segundo dados da Childhood Brasil. É uma tendência que vem com o avanço do movimento MeToo – vale lembrar que a expressão surgiu numa corrente que buscava escancarar como o abuso é recorrente na vida das mulheres desde a infância e, muitas vezes, fica encoberto em silêncio.Enquanto a obra de Martins é direcionada a adolescentes, há outras que buscam abordar a questão para crianças. Um deles é Leila, do escritor Tino Freitas e da ilustradora Thais Beltrame e que teve colaboração de Elvira Vigna nos primeiros estágios de concepção. Na fábula, a baleia que dá nome ao livro vai contente à praia quando é importunada pelo polvo Barão, que, sem permissão, mexe em seu biquíni e acaba cortando o longo cabelo dela.Freitas diz que buscou uma violência para a criança que não fosse explicitamente sexual. “Cortar o cabelo sem que se queira é uma agressão enorme. Se eu falo de abuso de forma clara, sem a metáfora, o que pode acontecer é a criança se sentir mal, com a realidade gritando no ouvido, ou dizer ‘isso não me interessa, não me aconteceu’.”A figura da baleia cabeluda leva a uma identificação, mesmo que seja pela curiosidade. E o reino da fantasia permite abordar assuntos duros com segurança, em uma estrutura que emula o poder milenar dos contos de fadas.No desenrolar do conto, a baleia Leila – uma referência a Leila Diniz - passa por um período de silêncio longo e pesado. Depois de se reerguer, ao encontrar de novo o abusador, ela grita bem alto que não permite aquele contato. “Eu não queria aquele beijo. Eu não gosto da sua companhia. Ninguém pode me tocar contra a minha vontade.”-Imagem (Image_1.2078335)