Fraqueza, desidratação e dores nas costas, fundo dos olhos e nas articulações. Febre alta, calafrios, enjoos, diarreia, falta de apetite e dores no abdome. Esses foram os sintomas que acompanharam de forma intensa a policial civil Priscila Cibelle de Campos Viana, de 39 anos, ao longo de sete dias. Em uma ida ao pronto socorro, os exames de sangue confirmaram: estava com dengue. “A febre alta não passava com antitérmicos e a fraqueza muscular chegou ao ponto de eu ficar sem andar por cinco dias. Tive medo de morrer e deixar meus filhos e marido”, conta.Priscila já havia tido dengue há cerca de quatro anos, mas os sintomas não foram tão fortes assim. “Fui por mais de cinco vezes ao pronto socorro nesses sete dias”, comenta. “Sabemos que quem já teve dengue uma vez, se tiver uma segunda ou terceira, a tendência é que seja mais grave. E, nesse momento, temos acompanhado casos muito graves, mais agressivos que de anos anteriores”, observa a médica infectologista Juliana Barreto.A dengue é uma doença viral que tem como vetor o mosquito Aedes aegypti, transmissor também dos vírus causadores da zika, chikungunya e febre amarela. Ao receber o diagnóstico, que pode ser feito por meio de exame clínico e pelo uso da sorologia (exame de sangue), vêm as recomendações médicas: repouso e muita hidratação, às vezes com uso de medicações contra a febre e dores.O Ministério da Saúde recomenda que a hidratação oral deve ser iniciada para tratar casos de dengue ainda nos primeiros sintomas e na fase de suspeita, quando geralmente se apresenta febre alta de início abrupto, dor de cabeça ou no fundo dos olhos, fraqueza e dor intensa nas juntas e no corpo. “A hidratação é fundamental para a recuperação da dengue. E o nível de hidratação necessário vai subindo de níveis de acordo com sinais de gravidade observados tanto por exame físico, quanto complementares”, diz a especialista. “A partir dos exames, sabemos se é preciso partir para a hidratação venosa e até para internação, para hidratar o paciente o tempo todo”, aponta.Respeitar essas primeiras recomendações pode ser decisivo para evitar complicações do quadro, que podem interferir na qualidade de vida do infectado mesmo depois de receber alta. A desidratação, inclusive, é uma das principais complicações da dengue e pode acometer o organismo em diversas funções. Os sinais que indicam a desidratação são letargia, cansaço extremo, sede, fraqueza, tontura, dor de cabeça, lábios e pele seca, olhos fundos, urina mais escura e concentrada que o normal e aumento da frequência cardíaca.Complicações Por se tratar de uma doença viral, a dengue geralmente tem duração de cinco a dez dias. No entanto, não é difícil encontrar pessoas que se queixam de dores, fraqueza, fadiga e indisposição durante semanas e até meses após a cura. É o caso de Priscila, que teve início dos sintomas no dia 7 de março e ainda não se recuperou totalmente. “Até hoje estou com dores nas articulações”, conta.Em caso de persistência de sintomas, é importante retornar ao médico para investigar se não se trata de alguma sequela ou complicação da infecção. A infectologista Juliana Barreto explica que as principais queixas após um quadro de dengue que não se tornou grave são mialgia (dor muscular) e fraqueza generalizada, que podem durar meses. Já em casos de internação, o acometimento hepático está entre as possíveis complicações. “Por isso a dor abdominal intensa é um sinal de gravidade”, alerta.Priscila não chegou a ser internada, mas se enquadra na classificação de dengue com complicações que, segundo o Ministério da Saúde, é todo caso grave que não se enquadra nos critérios da OMS de febre hemorrágica da dengue (FHD) ou dengue hemorrágica, e quando a classificação de dengue clássica é insatisfatória. “Minha maior preocupação foi com as dores e o inchaço no abdome que tive. Fiz uma tomografia que mostrou que meu fígado estava inflamado e o baço aumentado”, relata Priscila.A policial civil já fazia acompanhamento médico por conta de um quadro de esteatose hepática, nome dado ao acúmulo de gordura dentro das células do fígado que pode causar inflamação. “O médico explicou que o meu fígado já estava comprometido e, com a dengue, o quadro piorou. Estou em tratamento medicamentoso e muito preocupada”, comenta.Outros sintomas que são sinais de gravidade são náuseas, vômitos, febre persistente e hipotensão, que é a queda de pressão arterial a ponto de causar desmaios e tonturas. Além de pessoas que já tiveram dengue anteriormente, a população que possui comorbidades, idades extremas (idosos e crianças) e problemas com fatores de coagulação precisam de atenção redobrada, aponta a infectologista.Somam-se à lista de sinais de alerta sangramento na gengiva e no nariz, que podem indicar alterações hematológicas mais graves. A partir da solicitação de um hemograma, o médico busca acompanhar os níveis de concentração de diferentes estruturas do sangue que podem se alterar em um quadro de dengue, como a queda abrupta de plaquetas, que pode indicar hemorragia. “O hemograma nos mostra também outros sinais até maiores de complicações, como a leucopenia e a concentração de hematócrito, quando o paciente terá de ser acompanhado por mais tempo”, comenta a infectologista. A infecção pode acarretar, ainda, disfunção cardiorrespiratória e alterações graves do sistema nervoso.Cenário pandêmicoO aumento de casos de dengue em meio à pandemia de Covid-19 e aos casos de gripe podem dificultar o diagnóstico. "A dengue é muito parecida com essas infecções no começo, apresentando febre, dor de cabeça, dor no corpo e atrás dos olhos. Mas a grande diferença em relação a gripe e Covid é que a dengue não causa espirros, dor de garganta forte, tosse e nem essas manifestações respiratórias", aponta a infectologista Silvia Fonseca.Para a detecção de cada tipo de infecção, é preciso solicitar um tipo diferente de exame: o diagnóstico da Covid-19 é feito por teste rápido ou molecular (RT-PCR); este último também detecta o vírus Influenza, um dos principais causadores da gripe. Já a detecção do vírus da dengue é usualmente feita pelo uso da sorologia, com exame de sangue.Confusão e incômodosAlém da indisposição, a dengue pode ser bastante incômoda e até assustar algumas pessoas que apresentam um sintoma que está na lista dos considerados comuns e sem sinal de gravidade: a coceira, principalmente nas palmas das mãos e dos pés. “Na madrugada do sétimo dia de dengue, quando achei que já ia estar 100% recuperada, começou essa coceira nas mãos e nos pés. Foi bem ruim”, conta a artista e estudante de psicologia Jasmim Claveaux, de 19 anos.Durante as 48 horas seguintes, a coceira intensa não cessou. “Não melhorava com nada. Só dava uma aliviada quando eu colocava gelo”, conta. Já nos primeiros dias, Jasmim conta que foi difícil saber o que estava realmente sentindo. “Tive muito cansaço e uma sensação febril durante uns dois dias, que não chegava a ser uma febre. Achei que era até tristeza”, revela.Quando a febre intensa chegou e a fraqueza piorou, ela procurou uma unidade de saúde. “Fiz os exames e o resultado foi dengue. Me deu certa tranquilidade saber o diagnóstico, porque recebi o tratamento adequado. É muito ruim não saber o que está acontecendo com o seu corpo”, ressalta.Transmissão e alta de casos A dengue é uma doença viral que apresenta um padrão sazonal, geralmente com aparecimento de casos entre os meses de outubro e maio. No período chuvoso, característico do verão, são propagados mais intensamente os alertas para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor de vírus causadores da dengue, zika, chikungunya e febre amarela.Com grande oferta de focos de água parada no período de chuvas intensas, o desenvolvimento desses mosquitos é acelerado. “Creio que fui contaminada por negligência. Tem um lote baldio com mato muito alto no fundo da delegacia onde trabalho, e o dono não tem o hábito de fazer manutenções”, conta a policial civil Priscila Cibelle de Campos Viana.De acordo com o boletim do Ministério da Saúde (MS), até o fim da 11ª semana epidemiológica (encerrada no dia 19 de março de 2022), São Paulo, Goiás e Bahia lideravam o ranking de mortes por dengue no Brasil, com onze, dez e sete óbitos, respectivamente. Goiás chegou a ocupar o primeiro lugar do ranking de mortes na semana passada, como noticiou O POPULAR no último dia 24. Goiânia, no entanto, segue na liderança de casos prováveis entre municípios brasileiros nesta semana, somando 16.629 casos."É fundamental ressaltar os cuidados de prevenção e tratamento, principalmente com a população mais vulnerável, porque a dengue pode matar", aponta a infectologista Juliana Barreto. Além da situação do lote baldio próximo do seu trabalho, Priscila, que segue em observação por complicações da dengue, observa que parte da população não colabora com a eliminação dos focos. “Onde a gente passa em via pública se percebe a falta de empatia de algumas pessoas ao deixar lixo no chão. Uma simples tampinha de refrigerante pode virar criadouro da dengue. A fiscalização de ambientes hostis para focos também deveria ser intensificada para combatermos esse mal”, opina.Em ação realizada pela Prefeitura de Goiânia no mês de janeiro deste ano, foram encontrados focos de dengue em mais de 55% dos imóveis desocupados e fechados visitados na capital. Junto ao Ministério Público de Goiás, a Prefeitura disponibiliza um aplicativo de celular que permite que a população encaminhe denúncias de focos para a Vigilância Epidemiológica. Chamada de Goiânia Contra o Aedes, a ferramenta pode ser baixada na Google Play e Apple Store. A denúncia é realizada através do envio de foto ou filmagem e da localização do foco pelo aplicativo.Não brinque com a dengueSe não tratada corretamente, a dengue pode resultar em complicações, sequelas e até levar à morte. Confira alguns cuidados fundamentais e sinais que indicam que é a hora de procurar um médico:Sintomas comunsA dengue geralmente se inicia com febre abrupta, muitas vezes alta (38ºC a 39°C), acompanhada de dor de cabeça ou no fundo dos olhos, fraqueza, dor intensa nas juntas e no corpo e manchas vermelhas na pele. Sinais de alertaNáuseas, vômitos, febre persistente, dor abdominal intensa, desidratação, sangramento na gengiva e no nariz, falta de ar ou dificuldade de respirar, queda de pressão, tonturas e sintomas neurológicos como falta de coordenação motora, perda de força dos membros, sonolência, irritabilidade, depressão e amnésia.Em caso de suspeitaAo apresentar os primeiros sintomas, o Ministério da Saúde recomenda que se inicie a hidratação oral abundante de forma precoce. Comece a ingerir bastante água, suco de frutas, soro caseiro, chás e água de coco até que se tenha a confirmação da doença.Depois de confirmadaSiga as recomendações de hidratação do médico, que irá indicar o volume de líquidos necessário a cada dia de infecção. Se preciso, o especialista poderá indicar hidratação venosa. Faça repouso e procure uma unidade de saúde em caso de piora ou sinais de alerta.MedicamentosA automedicação pode resultar em complicações severas em caso de dengue. Antinflamatórios e salicilatos, como o ácido salicílico (AAS), são contraindicados pelo Ministério da Saúde e não devem ser administrados, pois podem causar ou agravar sangramentos. O ideal é procurar um médico para evitar a ingestão inapropriada e, se preciso, suspender o uso de medicações do paciente, como alguns anticoagulantes. Recomendados para alívio de febre e dor: dipirona e paracetamol.-Imagem (1.2428877)