“– Me apaixonei por uma Kombi, doutor. – Sim. –Quando não estou dentro da Kombi, só penso nela. Nas suas formas. No calor do seu estofado. No seu volante roliço em minhas mãos... – Certo. E qual é o problema? – Minha mulher ainda não sabe, e não sei como contar a ela. Já sei o que ela vai dizer. ‘Ou a Kombi, ou eu.’ O que que eu faço, doutor? – Acho que você deve pesar bem a situação. De que ano é a sua mulher? Ela carrega qualquer tipo de carga? E suas cadeiras, também são removíveis?” O trecho acima é do texto Paixões, que está na coletânea de crônicas O Melhor das Comédias da Vida Privada, de Luis Fernando Verissimo, uma das principais referências brasileiras neste gênero que suscita muitos debates teóricos e que, há bastante tempo, está entre os mais populares no País. Há quem diga que a crônica, uma mistura de literatura de ficção e jornalismo, seria uma invenção nossa, sendo mais uma prova da tradição tupiniquim em promover misturas, amálgamas, temperos originais. Não se sabe bem se a crônica moderna, esta que está neste livro fabuloso de Verissimo, foi ou não concebida por aqui. Isso nem tem tanta importância assim. O fundamental é compreender as engrenagens de um gênero muito amplo e cheio de alternativas, que costuma causar certa confusão de interpretação, mas que se mostra delicioso e envolvente, sobretudo quando é um mestre da palavra a praticá-lo. Luis Fernando Verissimo é um deles, e a antologia O Melhor das Comédias da Vida Privada é prova irrefutável do domínio que ele exerce sobre a difícil missão de unir o estilo literário, munido de uma ficção sólida e da construção de um enredo convincente, com questões, situações e personagens da realidade cotidiana que merecem comentários. O grande pulo do gato no caso do autor gaúcho é sua capacidade de extrair reflexões profundas, risadas desabridas e a mais refinada ironia de temas que aos olhos da maioria pareceriam triviais demais. Como no trecho citado, a Kombi, veículo que povoa as ruas brasileiras há décadas e que parece onipresente em feiras livres, torna-se o terceiro elemento de um inusitado triângulo amoroso. Mesmo levando certos sustos, o leitor se identifica imediatamente com o texto e o compreende, uma vez que suas referências principais são mais que conhecidas, resultando em uma cumplicidade, na possibilidade de entrar na conversa. Definir a crônica tem, tradicionalmente, se mostrado um trabalho problemático, mas Verissimo, neste livro, concede pistas valiosas nesse sentido. Texto híbrido de ficção e registro do mundo, a crônica já foi denominada como um gênero muito próximo dos romances realistas, como uma “literatura menor” – grandes críticos, como Massaud Moisés, compartilham dessa opinião –, como o resquício de literatura em uma imprensa que se tornou predominantemente informativa – visão de Afrânio Coutinho. Ela denota, sem dúvidas, a proximidade, e mesmo confluência, que literatura e jornalismo já viveram no passado. Em sua história, a atual crônica deriva de discursos mais antigos, como os relatos históricos e de viagem, algo que vem desde a Antiguidade. Em seu caráter moderno, porém, a crônica está intimamente ligada ao desenvolvimento da imprensa e aquelas que podem ser lidas no livro de Verissimo inserem-se nesse contexto de divulgação. Trata-se de um casamento que deu muito certo e que já teve como cônjuges grandes nomes de nossa literatura. A partir do início do século 20, a crônica invadiu a imprensa diária brasileira. Os pioneiros no gênero, tal como o conhecemos hoje, foram João do Rio e Lima Barreto, ainda que no século 19 autores como Machado de Assis, José de Alencar e Manuel Antônio de Almeida já dessem os primeiros passos no gênero, fazendo-o conviver com os romances de folhetim. A transformação do jornalismo em um espaço para a divulgação de informações sobre fatos reais fez com que a crônica ganhasse um caráter muito especial. Tais textos passaram a ser encarados como um tipo de respiradouro, de pausa na leitura das notícias para a apreciação de um relato mais leve, bem-humorado, comovente, que poderia ser totalmente ficcional ou inspirado em questões que estão nas manchetes, apoiando-se em assuntos discutidos pela sociedade. Estabeleceu-se, assim, um campo fértil de talentos e uma área cobiçada por jornalistas, poetas, romancistas. Nele atuaram autores como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Murilo Mendes e Rubem Braga, este último considerado o mestre maior dessa linguagem híbrida. Luis Fernando Verissimo entra nesse rol ocupando posição de destaque, sobretudo porque é um dos que melhor sabem empregar o humor para passar seu recado. É uma receita muito bem preparada, que invade o público e o privado sem ser inconveniente, mas revelando o que o bom cronista deve colocar às claras: o cotidiano. Nesse quesito, o autor age como um tipo de sociólogo informal, com olho mágico para as mais hilárias e surpreendentes indiscrições, para universos que são dos outros, mas que bem poderiam ser os nossos. E Verissimo faz isso sem juízos de valor, sem incompreensões, sem datações. O Melhor das Comédias da Vida Privada reúne textos cujas construções já foram testadas com êxito em outros meios que não a palavra escrita, conseguindo grande êxito. Já estiveram na TV e no teatro e fizeram sucesso em ambos porque suas temáticas e a condução que ganham de um autor inspirado e seguro dos terrenos que palmilha são cativantes, provocam empatia, em muitos aspectos se aprofundam sem cair em ranços e chatices. Verissimo entende que a crônica, ainda que possa incomodar e chocar, é uma leitura da atualidade e de temas eternos – amor, traição, injustiças, desigualdades, gafes de todo tipo – em que reconhecemos os outros e a nós mesmos. Nela, percebemos que o feio e o bonito, o rico e o pobre, o jovem e o velho estão mais interligados do que suspeitamos, do que gostaríamos até. Por isso a crônica é também jornalismo: ela informa e esclarece. Por isso a crônica é também literatura: ela cria e leva a reflexões sobre o mundo. O Melhor das Comédias da Vida Privada é uma antologia reunindo textos que Luis Fernando Verissimo publicou anteriormente, em outros livros e também em jornais. O primeiro volume desse projeto é de 1994, quando o autor coletou crônicas que publicou nos jornais Zero Hora e Jornal do Brasil. Os textos fizeram tanto sucesso que foram parar na TV, em uma série de programas na Rede Globo. A partir daí, o trabalho se tornou uma espécie de franquia que já dura quase 20 anos. Filho de Erico Verissimo – um dos maiores autores brasileiros do século 20 e autor de obras importantes, como O Tempo e O Vento e Incidente em Antares –, Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936. Desde os anos 1960, milita no jornalismo, primeiro como revisor, depois como cronista e correspondente. Chegou a cobrir Copas do Mundo e atualmente assina colunas em jornais como O Globo e O Estado de S. Paulo. Sua carreira literária tem mais de 50 anos e contabiliza sucessos nos gêneros crônica, romance e até teatro. Entre suas obras estão O Analista de Bagé, As Mentiras que os Homens Contam, Aquele Estranho Dia que Nunca Chega e os romances Borges e Os Orangotangos Eternos e O Opositor, em que flerta com a narrativa policial. Também é músico de jazz e tem um grupo que faz apresentações esparsas, o Jazz 6. Livro: O Melhor das Comédias da Vida Privada Autor: Luis Fernando Verissimo Editora: Objetiva Preço: R$ 45,90 (formato tradicional) e R$ 19,90 (edição de bolso) Filho de Erico Verissimo – um dos maiores autores brasileiros do século 20 e autor de obras importantes, como O Tempo e O Vento e Incidente em Antares –, Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936. Desde os anos 1960, milita no jornalismo, primeiro como revisor, depois como cronista e correspondente. Chegou a cobrir Copas do Mundo e atualmente assina colunas em jornais como O Globo e O Estado de S. Paulo. Sua carreira literária tem mais de 50 anos e contabiliza sucessos nos gêneros crônica, romance e até teatro. Entre suas obras estão O Analista de Bagé, As Mentiras que os Homens Contam, Aquele Estranho Dia que Nunca Chega e os romances Borges e Os Orangotangos Eternos e O Opositor, em que flerta com a narrativa policial. Também é músico de jazz e tem um grupo que faz apresentações esparsas, o Jazz 6. O Melhor das Comédias da Vida Privada é uma antologia reunindo textos que Luis Fernando Verissimo publicou anteriormente, em outros livros e também em jornais. O primeiro volume desse projeto é de 1994, quando o autor coletou crônicas que publicou nos jornais Zero Hora e Jornal do Brasil. Os textos fizeram tanto sucesso que foram parar na TV, em uma série de programas na Rede Globo. A partir daí, o trabalho se tornou uma espécie de franquia que já dura quase 20 anos. O estilo do inesperado Luis Fernando Verissimo é um senhor baixinho, gordinho, com a cara mais pacata que se possa imaginar e gente boa toda vida. Olhando para ele e lendo o que escreve, as histórias e tiradas de suas crônicas ficam ainda mais engraçadas e surpreendentes. Como alguém com esse perfil foi capaz de escrever o que escreve, meu Deus?, é a pergunta que se impõe. Seu humor extrapola fronteiras invisíveis de idade, religião, origem, time de futebol. Suas criações fazem o que é mais desafiador na literatura: ser universal, ainda que fale de algo mínimo, quase insignificante à primeira vista. E é justamente nesse desafio que o autor se engrandece em sua prosa, simples e cheia de diálogos, mas perfurante e cortante, como diria Rubem Fonseca, outro grande escritor nacional. Verissimo é um craque em bolar circunstâncias para que a verossimilhança de personagens e situações ultrapassem o mero convencimento e se tornem aliadas da imprevisibilidade saborosa e irresistível. O Melhor das Comédias da Vida Privada é dividido em sete partes. A primeira delas, chamada Fidelidades e Infidelidades, traz uma fauna de tipos comuns que lidam com uma rotina sentimental que poderia ser a minha ou a sua, mas que leva a episódios engraçados e inesperados. Ao mesmo tempo, o autor traça perfis certeiros de homens e mulheres a partir de suas idades, suas ocupações, suas relações caseiras e suas aspirações sexuais. “É sabido que depois dos 40 os homens ficam indefesos contra perfume de nuca”, escreve em uma das crônicas. Em outra diz que “Délio era tão mau-caráter que enternecia as pessoas”. O que as caracterizam são uma prosa breve e objetiva, mas jamais descuidada, e a construção de personagens que funcionam como arquétipos da vida comum, como alegorias de comportamentos e mentalidades plenamente reconhecíveis. A segunda parte do livro, Encontros e Desencontros, versa, basicamente, sobre como as pessoas podem ser complicadas, incluindo aí seus traumas, seus fantasmas, suas manias, suas inseguranças e toda ordem de singularidades, por mais estranhas que pareçam ser. “Negar fogo é humano. Antes de pensar em atirar-se pela janela, examine a situação”, aconselha o autor em uma das crônicas. Na parte seguinte, Ele e/ou Elas, as diferenças entre os sexos são evidenciadas de formas divertidas e irônicas. Uma das melhores crônicas é Antigas Namoradas, em que um homem de meia-idade cai na besteira de começar a listar suas ex-amantes na frente da esposa, até que uma revelação para lá de indiscreta vem à tona. Verissimo adora estruturar seus textos com essa dinâmica. Tudo parece muito bem, normal, quando, de repente, o imprevisível surge, avassalador. Todos são pegos de supresa, personagens e leitores, o que faz com que, de alguma forma, uns se confundam com os outros. As seções seguintes são Família e Pais e Filhos, séries de histórias que remetem diretamente ao dia a dia mais prosaico, o que já significa muita coisa. Basta haver talento para saber identificar o que fatos rotineiros podem esconder. Uma discussão num jogo de buraco pode colocar uma união estável na berlinda, assim como um rapaz estudioso e avesso a farras pode significar o desgosto de um pai machista que acredita que o filho, ao invés de ficar em casa lendo, deveria levar para a cama o maior número de mulheres que pudesse. O aparentemente trivial ganha, assim, outra dimensão em situações comuns, recorrentes, mas em que afloram convenções que “não podem” ser ignoradas. Aliás, quanto a esse ponto, a crônica Convenções é uma aula. O livro é encerrado com os capítulos No Bar e Metafísica, em que Verissimo investe em cenas em um bar que lembra as do personagem de Humphrey Bogart em Casablanca, estruturadas como minicontos, abordando situações diversas. Já em Metafísica, o autor coloca até Deus para conversar com Einstein, e se embebedar depois. O tipo de crônica que Verissimo constrói em O Melhor das Comédias da Vida Privada é menos autobiográfica, em que o narrador interfere nas narrativas com suas experiências pessoais – método em que o autor é bastante hábil – e mais observadora. No livro, o escritor prefere lançar um olhar de fora, relatando situações de um ponto de vista onisciente, o que é adequado para a temática. Afinal, todas as histórias, como o título da obra denota, falam da vida privada dos personagens, o que obriga o cronista a estar na intimidade deles. Outro fio da navalha sobre o qual Verissimo caminha refere-se ao perigo de cair em uma prosa vulgar, o que não acontece. É um feito. Muitos tentaram dissertar sobre sexo, adultérios, gostos menos usuais na alcova e escorregaram para a baixaria. Verissimo, por sua vez, imprime leveza a tais tabus, tira sarro dos pudores que surgem ao tocar certos assuntos, mostra um lado B de tais complicações sentimentais. O livro é uma leitura divertida, mas que tem profundidade suficiente para não ser apenas isso. Rogério Borges é repórter e cronista do POPULAR, mestre em Estudos Literários e Linguística pela UFG e doutor em Comunicação pela UnB-Imagem (1.137733)-Imagem (1.137735)-Imagem (1.137730)