Foi-se o tempo em que personagens negros em novelas de época eram sempre escravizados, explorados e em posições inferiores. A Nobreza do Amor, nova novela das 18 horas da Globo, vai retratar, pela primeira vez na TV aberta, reis, rainhas, princesas e guerreiros de uma fábula africana dos anos 1920. O elenco conta com Lázaro Ramos, Erika Januza, Bukassa Kabenguele, Rita Batista, Duda Santos e outros. Em evento com a imprensa para divulgar a novela, que estreia dia 16, os artistas se emocionaram com a novidade de estar contando uma história de ancestralidade africana por um novo viés.Intérprete do vilão Jendal, Lázaro Ramos se lembra de quando seus personagens em novelas não tinham família, era sempre personagens avulsos. Outra novidade é fazer um antagonista sádico. “Está sendo uma alegria imensa fazer esse vilão tão bem escrito por essa equipe de autores. E está sendo uma descoberta de prazer falar coisas absurdas e maldades”, se diverte o ator.Erika Januza, que vive a rainha Niara, conta que, quando ficou sabendo da produção, pediu para fazer parte. “Eu ia fazer parte de qualquer jeito, nem que fosse como telespectadora”, conta. “A gente, por tanto tempo, quis contar uma história como essa e nem imaginou que era possível. Achávamos que era uma coisa distante da nossa realidade”, conta.Na maior parte das produções de época da TV brasileira, lembra Érika, artistas negros contaram histórias de escravizados ou subalternos. “Que também são válidas, porque a história tem de ser contada. Mas o passado que a gente contava era sempre triste, um passado de dor, um passado que nos diminui”, diz. “Chegou a hora de mostrar para as novas gerações e mesmo para as gerações atuais que existe outro passado. Somos muito mais do que nos foi apresentado”, diz a atriz, emocionada.“Quando eu olho tudo isso acontecendo, acho sim que a gente está fazendo história. A gente não sabe de audiência, a gente não sabe de nada ainda, mas a gente já está fazendo história por estar contando o nosso ponto de vista de um outro lugar. Fazer parte dessa construção para mim já é lindo e histórico por estar rompendo barreiras”, comemora.Belezas e vingançaHilton Cobra, que vive o conselheiro Chinua no reino fictício de Batanga, completa: “Acho que essa novela vem coroar a nobreza, vem coroar o que o movimento negro brasileiro exige há mais de 40, 50 anos: que a televisão aberta brasileira mostre de fato a vida da gente negra brasileira”, diz.“Acho que para nós, negros e não negros, é uma felicidade estar num projeto que será divisor de águas. Um projeto no qual os 120 milhões de pretos e pretas desse País vão poder se ver num lugar de beleza e nobreza. Pela primeira vez, a televisão brasileira, a telenovela mostra a vida e a realidade do povo negro do mundo”, completa o artista.Outro grande nome do elenco é Welket Bungue, ator nascido na Guiné-Bissau e crescido em Portugal. Ele vive Lumumba, um guerreiro que se torna rei de Batanga. Welket conta que cresceu com raras referências de artistas negros em Portugal ?as principais que tinha, conta, vinham das telenovelas brasileiras. “É emocionante poder ocupar esse lugar, mas o mais importante é podermos estar munidos de consciência histórica, consciência crítica e política”, afirma.Em 2008, Welket participou de sua primeira produção brasileira. “Eu interpretava um serviçal de roça”, lembra. “Quase 20 anos depois, poder estar interpretando um personagem que nesse momento está na função de rei, ao lado do Lázaro Ramos e desse elenco magistral, é muito especial”, diz. “Ocupar esse lugar é não só uma responsabilidade, mas também um grande regozijo. Não poderia estar mais honrado”, completa.Barro pretoA personagem de Duda Santos vai marcar a intersecção entre os dois núcleos da novela, uma novela “dois em um”, como define a criadora Duca Rachid. Duda vive a princesa Alika, herdeira do trono de Batanga, que acaba fugindo para o Brasil e desembarcando na cidade fictícia de Barro Preto, no Rio Grande do Norte.“Eu acho que foi o papel em que eu mais questionei minha existência, de onde eu venho. Estamos falando de uma princesa, em um reino construído para ela e para o tamanho dela. Ela não precisa se apequenar” diz Duda.A atriz conta que nunca tinha tido referências de uma princesa africana. Personagens da nobreza eram sempre brancas, europeias, tomando chá em seus vestidos bufantes. A novidade do papel, portanto, também incluiu estudar produções que abordam esse universo. “A gente assistiu a filmes como ‘Pantera Negra’ e ‘A Mulher Rei’, mas é um exercício diário pensar nessas questões, sobre quanto o racismo nos fez nos apequenar”, reflete Duda.