Os escritores mentem. Parece uma confissão menor, claro, uma observação boba, clichê. Pois escrever é mentir, o tempo todo. Consigo escutar as correções: “Mentir, não. Inventar, criar, ficcionalizar”. Reviro os olhos e volto a afirmar, sem receio, essa outra ideia que quero explorar aqui: muitos escritores mentem. E não é só no texto. Quero falar de outra mentira. Quem escreve livros costuma mentir, muitas vezes sem saber, quando lhe perguntam: “Quanto tempo levou para escrever esse livro?”. Um ano, dois anos, seis anos, os escritores dizem. Eu também já menti muitas vezes. “Quanto tempo demorou para escrever o Amores ao sol?”. Eu já disse que foi em seis meses, sete meses, oito meses, um ano. Mentira. Não foi. Vim me retratar e ajudar outras pessoas que escrevem a falar a verdade. Peço desculpas a quem enganei. Sendo franco, sentado na cadeira, foram seis meses. Mas acontece que não é assim, simplesmente, que se escreve: sentado numa cadeira.