Quase quatro décadas depois do acidente radiológico com o césio 137, o Museu de Arte de Goiânia (MAG) volta os olhos para uma das histórias mais dolorosas da cidade. A exposição Memórias de Dona Lourdes: Ver Para Não Esquecer começa a receber o público a partir desta quarta-feira (16). A instalação reúne fotografias, documentos jornalísticos e relatos a partir do testemunho de Dona Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide das Neves, menina de seis anos que morreu após ser contaminada pelo material radioativo.“É uma exposição que tem uma importância muito grande porque trabalha com a memória de uma família, mas também com a memória de toda uma cidade”, afirma Antônio da Mata, diretor do MAG e responsável, ao lado de Denise Jácomo, pela concepção e produção artística da instalação. A proposta é apresentar Leide para além da imagem cristalizada pela tragédia, recuperando a criança que brincava, convivia com a família e sonhava em ser bailarina. Uma fotografia preservada por Dona Lourdes ajuda a reconstruir essa história anterior ao acidente.Parte importante desse percurso vem do fotojornalismo. A exposição reúne registros produzidos durante a cobertura do acidente por fotógrafos do POPULAR, que acompanharam diferentes momentos da tragédia. Entre as imagens estão fotografias assinadas por Yoshikazu Maeda e Lourisvaldo de Paula. São registros da demolição de construções contaminadas, do monitoramento da radiação e do enterro das vítimas, entre outros momentos que ajudaram a documentar o episódio para a história de Goiânia.A montagem também interfere na maneira como essas imagens são vistas. Fotografias e registros jornalísticos aparecem dispostos no chão, em estruturas pretas que remetem visualmente a lápides. “O visitante precisa baixar os olhos para encontrar as imagens, em um percurso que aproxima o documento da ideia de perda e morte”, explica o diretor.No meio desse universo de registros duros, a exposição abre espaço para a menina que existia antes do césio 137. Uma bailarina aparece na montagem como referência ao sonho de Leide, enquanto as bonecas recuperam elementos de sua infância e da vida familiar. O contraste é intencional: ao lado de imagens de demolições, contaminação e enterros, surgem sinais de uma criança que tinha interesses, afetos e desejos próprios. A escolha procura deslocar o olhar sobre Leide, muitas vezes reduzida à condição de símbolo da tragédia.A história de Dona Lourdes atravessa toda a instalação. Depois que a contaminação foi identificada, a família deixou a casa sem saber que não voltaria. Roupas, documentos e outros pertences foram destruídos como rejeitos radioativos. Entre as poucas coisas que a mãe conseguiu preservar estavam as fotografias da filha. Algumas foram descontaminadas e devolvidas à família. O relato de Dona Lourdes, reproduzido na exposição, conta que, quando perguntada sobre o que gostaria que fosse salvo antes da demolição da casa, respondeu: “as fotos da minha filha”.“A instalação não busca apenas recontar o acidente, mas colocar em primeiro plano as pessoas que tiveram suas vidas atravessadas pela contaminação”, destaca Da Mata. Aos 39 anos do episódio, as imagens do POPULAR ganham outra camada de leitura dentro do museu: continuam sendo documentos de uma tragédia, mas também passam a integrar uma exposição sobre memória, perda e a tentativa de preservar aquilo que não pode ser recuperado.Além da mostra dedicada ao césio 137, o MAG mantém em cartaz o 3º Encontro Nacional de Artistas Naïfs no Centro-Oeste (Enanco). A terceira edição reúne 86 artistas e apresenta trabalhos que percorrem diferentes regiões do País, com paisagens, costumes, festas, crenças, memórias e cenas do cotidiano. O projeto começou em 2017 e chega agora à terceira edição, reunindo artistas selecionados e convidados, além do homenageado Waldomiro de Deus. A exposição segue em cartaz até 18 de outubro.SERVIÇOExposição: Memórias de Dona Lourdes: Ver Para Não EsquecerVisitação: a partir desta quarta-feira (16)Em cartaz: até 12 de outubroHorários: terça a sexta, das 9 às 12 horas e das 13 às 17 horas; sábados e domingos, das 8 às 12 horas e das 13 às 18 horasLocal: Museu de Arte de Goiânia (MAG), Rua 1, nº 605, Bosque dos BuritisEntrada: gratuita