“Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia.” Foi isso o que disse Federico García Lorca numa conversa com seu companheiro de versos, o também espanhol Gerardo Diego. Mas é inevitável imaginar para onde Lorca olhou quando se viu diante da morte, na madrugada de 18 ou 19 de agosto de 1936, em um local entre Viznar e Alfacar, perto da cidade de Granada, na Andaluzia, sul da Espanha. No momento do fuzilamento, teria ele olhado o céu? Seus algozes, soldados fascistas a serviço do futuro ditador Francisco Franco, no início da Guerra Civil Espanhola, ele não poderia ter encarado, já que recebeu os tiros de costas, método usado para matar homossexuais. O que teria passado pela mente de um dos mais inspirados poetas e dramaturgos de seu tempo nos seus últimos dias de agonia e tristeza? Já se vão 90 anos desde aquele momento fatídico, no qual o mundo perdeu um de seus maiores autores, com apenas 38 anos de idade. Capturado dias antes por falanges de extrema-direita, quando foi retirado à força da casa do amigo e poeta Luís Rosales, em Granada, ele foi conduzido para a sede do Governo Civil e, em seguida, para as proximidades de onde foi executado, ao lado de dezenas de outros prisioneiros. Em 2015, o jornal britânico The Guardian teve acesso a um relatório oficial sobre a detenção e morte de Lorca. A pena capital contra o poeta foi justificada por supostas atividades de espionagem e por ele ser homossexual e socialista.