Com o último capítulo a ser exibido nesta sexta-feira (15), Três Graças (Globo) finaliza sua trajetória com o retorno de um fenômeno da teledramaturgia: um enredo capaz de mobilizar público, crítica e redes sociais ao mesmo tempo. Em um cenário em que as novelas das nove vinham enfrentando desgaste criativo desde A Força do Querer (2017), a obra de Aguinaldo Silva, escrita ao lado de Virgílio Silva e Zé Dassilva, conseguiu devolver ao gênero algo que parecia perdido — o prazer coletivo de comentar novelas.Vale comentar que a produção também marcou a volta triunfal de Aguinaldo à Globo após O Sétimo Guardião (2018). Dessa vez, o autor apostou justamente no que sabe fazer de melhor: um novelão clássico, com conflitos populares, vilania forte, paixão avassaladora e personagens femininas centrais. As Marias das Graças, interpretadas por Sophie Charlotte, Dira Paes e Alana Cabral, sustentaram a trama do início ao fim sem serem apagadas por personagens coadjuvantes.Sem dúvida, um dos maiores destaques foi o papel da atriz Sophie Charlotte. A protagonista fugiu do arquétipo da mocinha ingênua e se tornou uma personagem emocionalmente atravessada pela realidade brasileira. Trabalhadora, sobrecarregada e imperfeita, Gerluce foi capaz de cometer crimes em nome da própria justiça sem perder a identificação do público. A artista entregou uma das atuações mais marcantes dos últimos anos e transformou a personagem em fenômeno nas redes sociais.Devido ao sucesso forte, a novela também acertou ao expandir seu universo para além das telas convencionais. O casal Lorena Ferette e Eduarda Fragoso, interpretadas pelas atrizes Alanis Guillen e Gabi Medvedovski, respectivamente, gerou a novelinha Louquinhas, lançada nas redes sociais em formato vertical. Essa repercussão positiva mostrou como a dramaturgia pode dialogar com novas plataformas sem perder a identidade.Outra evidência a ser mencionada na telenovela foi a atuação de Grazi Massafera, no papel da Arminda de Melo Dantas. Em sua primeira antagonista das nove, a atriz surpreendeu o público ao equilibrar o sarcasmo, carisma e a crueldade na medida certa, transformando a vilã em uma personagem que despertou ódio e fascínio ao mesmo tempo no coração daqueles que assistiam.A química afiada com Murilo Benício, intérprete do benfeitor Santiago Ferette, rendeu alguns dos momentos mais divertidos e ácidos da novela, que arrancou gargalhadas mesmo em meio aos conflitos centrais da trama. Pelo incrível talento, o reconhecimento veio também fora da ficção: Grazi conquistou o prêmio de melhor atriz no tradicional Melhores do Ano de 2025, consolidando de vez sua carreira e um dos desempenhos mais elogiados do enredo.Três Graças termina como uma obra de arte importante para a teledramaturgia da Globo. Mesmo com alguns problemas, conseguiu formar uma base fiel de espectadores, recuperar a repercussão popular das novelas em horário nobre e provar que o público ainda responde quando encontra personagens fortes, conflitos bem sustentados e emoção genuína. Em tempos de tramas excessivamente aceleradas e cheias de reviravoltas vazias, a novela lembrou que, às vezes, o público da TV está exausto do ritmo frenético das redes sociais e espera por uma história de qualidade e bem contada, ou seja, a receita clássica ainda funciona melhor.