“Como pode um peixe vivo viver fora da água fria?”, pergunta uma das canções populares mais queridas do “Presidente Bossa-Nova”, como ficou conhecido Juscelino Kubitschek. O homem que construiu Brasília talvez pensasse nesses versos quando, nos últimos anos de sua vida, passava temporadas na pequena fazenda que comprou no município de Luziânia, no entorno da capital federal, onde estava tão perto de sua obra máxima, mas muito longe de poder apreciá-la. Cassado pela ditadura militar quando exercia o mandato de senador por Goiás, JK teve seus direitos políticos suprimidos e foi proibido de entrar na cidade que idealizou e cuja construção comandou. Da Fazendinha JK, como o local passou a ser chamado, via as luzes da capital federal, sem saber que nela repousaria em breve. Há cinquenta anos, na noite de 22 de agosto de 1976, uma colisão frontal do Opala preto onde viajava Juscelino e seu motorista, Geraldo Ribeiro, com uma carreta, depois de o carro ter perdido o controle e atravessado o canteiro central da Via Dutra, no município de Resende (RJ), pôs fim a uma vida que transformou o Brasil. O mandatário mais popular na era pós-Getúlio, cuja personalidade era marcada pelo arrojo administrativo e pelo carisma pessoal, desaparecia num rastro de suspeitas. Teria sido mesmo um acidente ou JK foi vítima de um atentado dos militares no poder? Uma pergunta que já obteve inúmeras respostas, mas uma certeza fica daquele fato trágico: mesmo obrigado a estar fora da vida pública, Juscelino ainda era um protagonista no imaginário político nacional. E ainda é.