Tão comentadas, mas tão pouco compreendidas. As ideias que Paulo Freire apresentou ao longo de sua carreira como educador suscitam debates acalorados, mas nem sempre são devidamente entendidas. “Em um contexto social (décadas de 1940, 1950 e 1960), no qual o povo não era reconhecido como sujeito de direito e, muito menos, como humanos (negros, índios, mulheres, trabalhadores do campo e da cidade), Paulo Freire traz o povo para o centro do processo social, cultural e, educacional como seres humanos, e que, como tais, têm todo direito a uma existência digna”, pontua o professor Aldimar Jacinto, da PUC Goiás.Voltando seus olhos com mais ênfase para os adultos que ainda não eram alfabetizados, o que impedia progressos profissionais e pessoais, Paulo Freire começou cedo a refletir e a praticar o que lhe parecia mais adequado. Primeiro como professor de língua portuguesa num colégio do Recife, em meados dos anos 1940, depois como diretor do setor de Educação e Cultura da Confederação Nacional da Indústria, entre 1947 e 1954, Freire percebeu que o analfabetismo era uma chaga aberta, mas que o aprendizado da leitura e da escrita devia vir acompanhado de maior conscientização das classes trabalhadoras.“Paulo Freire, a partir de sua sensibilidade de classe, conseguiu construir naquele espaço um modelo educacional preocupado com as relações entre escolas e famílias, questionando a compreensão das dificuldades das pessoas”, destaca Aldimar. “Ele foi construindo a sua prática educacional numa práxis, em uma constante curiosidade e sensibilidade com o povo, o trabalhador, imerso em uma realidade de desigualdade social.” Aí está a gênese de algumas de suas obras mais influentes, como Educação como Prática da Liberdade e Pedagogia do Oprimido.No início dos anos 1960, no governo João Goulart, Paulo Freire teve suas ideias acolhidas, desenvolvendo mais seus métodos. “Ele nunca tinha uma resposta pronta, mas fazia perguntas para que a pessoa conseguisse chegar a um pensamento autônomo. Na verdade, as respostas já estavam na pessoa, em seu cotidiano, em sua vida prática. Ele fazia essa relação”, diz Sônia Couto, do Centro de Referência Paulo Freire. As demandas dos alunos eram inseridas na sala. As primeiras palavras que os camponeses aprendiam, por exemplo, estavam ligadas ao seu universo de trabalho, ao seu imaginário.Primeiro em Pernambuco, depois em outros Estados do Brasil, os métodos freirianos, com sólida base teórica e em correspondência com outras linhas da pedagogia, começaram a ser praticados em mais larga escala na primeira metade da década de 1960. A mais famosa experiência foi na cidade de Angicos, Rio Grande do Norte, onde 300 trabalhadores rurais foram alfabetizados em 45 dias. O golpe militar interrompeu esses trabalhos e mandou Freire para o exílio. No exterior, ele continuou a lapidar suas ideias, o que favoreceu que elas pudessem chegar a outras partes do mundo. Os reflexos disso são vistos hoje.“Recebemos pesquisadores de todo o mundo”, informa Sônia Couto, do Centro de Referência Paulo Freire. Ela cuida de um dos grandes acervos deixados pelo educador. “Temos aqui cerca de 600 volumes de sua primeira biblioteca, que ele formou antes de ser exilado. Havia mais, mas houve uma enchente durante o exílio dele e muitos volumes foram perdidos. Depois ele formou outra biblioteca, com cerca de 5 mil livros, após seu retorno. Além disso, temos a correspondência dele.” Esse material é ouro em pó para quem deseja mergulhar na obra do pedagogo. “Pedagogia do Oprimido está traduzida em 22 idiomas.”Atualmente, Paulo Freire não só é o autor mais citado do Brasil em trabalhos acadêmicos em todo o planeta, como ocupa a terceira posição nesse ranking mundial entre teóricos da área de humanas. Ele recebeu 29 títulos de doutor honoris causa em instituições de vários países. Na volta ao Brasil, durante o processo de redemocratização, Paulo Freire continuou seu trabalho, fundou o Instituto que leva seu nome, trabalhou em prol de cursos de formação de professores e foi titular da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo na gestão de Luíza Erundina. Ele morreu em 2 de maio de 1997.