Um dos críticos de arte mais respeitado do Brasil, Jacob Klintowitz, de 76 anos, participa de uma roda de conversa sobre o legado do artista frei Nazareno Confaloni, nesta terça-feira (23), a partir das 10 horas, no Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC), no Centro Cultural Oscar Niemeyer. Klintowitz visitará a mostra ABC Confaloni – Modernidade Inaugural e Outras Obras, em cartaz na cidade desde dezembro e que ficará aberta até 25 de fevereiro. “Tenho uma proximidade muito grande com a obra do frei. De fora de Goiás, eu devo ser uma das pessoas que teve o maior convívio com todo o trabalho dele de iniciação dos artistas locais, a maneira como ele introduziu técnicas e disciplinas”, comenta o crítico, que também falará sobre o momento das artes no País. A atividade é em celebração aos 101 anos do frei, completados hoje. Ainda na programação, serão lançados os livros Tempo Confaloni, do curador geral da exposição PX Silveira, e História da Salvação, Segundo Frei Confaloni, do frei Lourenço Papin, contemporâneo de Confaloni e que mora no interior de São Paulo. Natural de Porto Alegre (RS) e morando atualmente em São Paulo, Klintowitz é um dos críticos mais atuantes do Brasil. Ele é autor de mais de 175 livros e escreveu mais de 5 mil artigos em jornais e revistas especializadas e recebeu duas vezes o Prêmio Gonzaga Duque, da Associação Brasileira de Críticos de Arte, por sua intensa ação cultural. Em entrevista por telefone ao POPULAR, Klintowitz falou também sobre censura nas artes e sobre a arte goiana. Confira!Quem são os artistas goianos mais destacados nacionalmente?Nesse momento, é o Siron Franco. É o goiano mais conhecido no Brasil. Da geração dele, ele é um dos grandes destaques, tem uma obra sólida e premiada. Dentro dos artistas espontâneos, não gosto muito do termo ingênuo, o Poteiro foi uma das maiores expressões brasileiras. Outro nome forte de Goiás é o de Ana Maria Pacheco. Ela alça na sua obra um nível de expressividade muito elevada e ao mesmo tempo é universal porque está tratando de paradigmas que fazem parte da concepção psíquica do indivíduo e junto com isso é pessoal.O que faz um artista ser artista: o talento natural ou o conhecimento acadêmico?Eu só acredito em quem nasce artista, porque é um talento nato, o que não significa que essa vocação valha por conta própria. É necessário um longo trabalho para que se atinja um nível linguístico elevado, mas sem o dom é praticamente impossível. O talento precisa ser elaborado. Isso vale para as artes visuais e para a literatura também. Mesmo os maiores artistas que a humanidade conheceu aprenderam até o último dia da vida deles.Existem quantos tipos de crítico de arte?Tem muitos. Tem o crítico que é um professor, que é um profissional, que faz pesquisas de linguagem, que tem uma metodologia para abordar. Tem aquele que é um historiador, ele levanta dados, como era a vida dos artistas na época. Tem os que são do meu tipo. Eu sou aquele que sente a obra do artista, que percebe onde está a alma dele e faz um texto como se fosse um ensaio literário. Quando vejo uma pintura, eu imediatamente associo com as grandes obras de poesia. Para mim, é mais importante saber qual é o percurso sensível dele do que pensar o que a geração dele fez. O mais importante é eu ver a obra do Siron e lembrar do poema do Fernando Pessoa do que identificar o que o Siron estaria fazendo em 1965. Não sou contra quem faz isso, mas não é o meu temperamento. Eu mergulho no trabalho do artista como se fosse a salvação da minha alma.Como deve ser a atuação do crítico de arte na era digital?Terá de se redefinir porque a expressão do crítico se dava muito na mídia tradicional e também na televisão. O problema é que nas redes sociais tudo é rápido e é um caminho muito perigoso por conta da superficialidade. Às vezes, é possível fazer uma crítica em duas laudas e meia, mas para isso é preciso ser muito bom porque de alguma maneira é fundamental estabelecer um certo vinculo poético com a obra porque, senão, fica uma descrição da obra horrorosa, fulano é isso e fez aquilo, isso lembra pop art, fica uma coisa chatíssima.Como o senhor avalia a onda de censura nas artes?Acho absolutamente um horror. Sou contra qualquer tipo de censura. A arte tem de ser expressiva e dizer o que quer e você tem o direito de não ver, inclusive. Ninguém é obrigado a ir a uma exposição, não é obrigado a ir ao cinema ou ao teatro. Agora, determinar o que as pessoas podem ou não ver é conferir ao cidadão um diploma de idiota. Não é possível que, se ele vê uma mulher nua ou um homem nu numa mostra, aquilo vai formar o caráter dele. Que coisa mais obscura. Esse tipo de comportamento é um atraso terrível para o País e isso não ficará somente no campo da arte. Isso é uma regressão ao que tem de pior que era a ignorância do totalitarismo militar.O senhor ficou espantado com tanta repercussão?Sou muito vivido. Eu passei o período militar como talvez a pessoa que mais escreveu sobre arte, publiquei 5 mil artigos e enfrentei muito essa ignorância e sei como é fácil levar no bico uma população primitiva e mal educada como a nossa. O ignorante não sabe que o mal está em alguém que roubou 2, 3 ou 4 bilhões da Petrobras e não no desenhista. Acho uma tragédia para o Brasil. Todos os países que foram para frente e vão para frente são os países que estão estruturados em cima da criatividade. Isso vale para tudo. Os países que não fazem serão sempre de terceira categoria.-SERVIÇORoda de conversa: Com o crítico de arte Jacob KlintowitzData: Terça-feira (23), a partir das 10 horasLocal: Museu de Arte Contemporânea de Goiás – Centro Cultural Oscar Niemeyer (GO-20, km 0, saída para Bela Vista)Entrada franca