No meio da maior tristeza da sua vida, o cantor e compositor Jair Oliveira, o Jairzinho, reuniu forças para compor. Na volta do velório do pai, Jair Rodrigues (1939–2014), que morreu de infarto, ele se fechou no estúdio da residência da família, em Cotia (SP), e escreveu a canção O Sorriso, título que lembra a grande característica da personalidade de Jairzão: a alegria.A música foi lançada no início do mês nas plataformas digitais e fará parte do novo disco do artista, Selfie, previsto para ser lançado em dezembro. O álbum – décimo da sua discografia – será o primeiro autoral e inédito em oito anos e reúne dez composições gravadas no Flux Studios, em Manhattan, Nova York (EUA), cidade onde ele mora desde janeiro com a mulher, a atriz Tânia Khalill, e as duas filhas. “É uma grande alegria prestar essa homenagem. O meu pai, além do legado musical, acabou deixando um legado importante de alegria e humildade”, lembra ele, em entrevista por telefone ao POPULAR.No bate-papo, Jairzinho, que recentemente se apresentou na capital com o show Os Filhos dos Caras, falou do processo de composição da letra de O Sorriso, do pai e do projeto Balão Mágico, que ele acabou ficando de fora por conta da agenda. Confira. Como surgiu a canção O Sorriso?É o primeiro single do meu novo disco que será lançado no final do ano. A música tem um significado muito especial. Eu compus depois que cheguei do velório do meu pai em 2014. Cheguei em casa às 3 da manhã naquele esgotamento emocional e fui para o meu estúdio. Eu queria me comunicar com o meu pai e fiquei pensando na herança mais marcante que ele me deixou além da música e foi o sorriso. Apesar de ter feito num momento de muita saudade, eu quis passar a lição que ele sempre deixava por onde passava que era de alegria. Qual o sentimento de homenagear o seu pai?É uma grande alegria prestar essa homenagem. O meu pai, além do legado musical, acabou deixando um legado importante de alegria e humildade. Muita gente, quando lembra de Jair Rodrigues, lembra de música e de sorriso. Guardo muito essa lição que ele deixou de gosto pela vida, de abraçar a vida com tudo, de fazer disso uma grande festa e de colocar isso na musicalidade dele. Ele sempre falava que, se não fosse o homem mais feliz do mundo, era um dos mais felizes. Isso sempre foi a marca dele. Como você acha que estaria a carreira do Jairzão hoje?Ele nunca ficaria parado, nunca se permitiu ficar um tempo sem fazer música e projetos e por isso tenho certeza que ele estaria gravando outros discos, pensando em show. Ele morreu algumas horas depois de fazer uma apresentação, o que demonstra que era algo muito forte na vida dele essa relação com a música. Eu tive a honra de produzir os dois últimos discos dele, já tinha feito isso antes, no total foram cinco. Ele morreu cantando e estaria na ativa total. É difícil ser filho de um cantor tão querido como o Jairzão?É difícil para quem olha de fora. Eu nunca me comparo com meu pai, nunca tive essa visão, nunca coloco pra mim essa questão porque senão você se anula. Toda vez que você coloca na sua profissão que quer ser igual a alguém, você se perde. Muitas pessoas colocam essa pressão, mas eu mesmo não me cobro por isso. Eu sinto um orgulho enorme de ser filho do Jair Rodrigues e, como tenho a mesma carreira que ele, eu jamais tento comparar meu trabalho com o do meu pai. O que faço é tê-lo como referência e uso para complementar alguma coisa que queira fazer no meu trabalho. Mas como você encara as comparações?Ser filho do Jair Rodrigues pra mim é uma glória. Fico triste quando alguém me compara com ele. Claro que não sou igual e que nunca serei. Difícil é ser filho de pessoas que fazem mal para outras, difícil é ser filho de pessoas que corrompem a política, de gente que pega dinheiro público sendo que os hospitais estão precisando de auxílio. Eu ficaria incomodado com isso. O meu pai tinha seus defeitos, mas na maioria das vezes levava alegria para as pessoas com a música. Só sinto sentimento bom. Não sinto nenhuma dificuldade de afirmar que sou filho de Jair Rodrigues. Por que não deu certo participar da turnê do Balão Mágico?Não deu certo porque estou morando fora, estou passando um período em Nova York (EUA), com minha mulher e minhas filhas. Eu torço muito por eles, tenho maior carinho pela Simony, Mike e Tob, tenho certeza que será uma turnê de muito sucesso porque muitas pessoas se relacionam com essas músicas que marcaram uma geração e continuam na memória de muita gente, mas, ao mesmo tempo, também tenho para a minha carreira um objetivo muito específico de criar e fazer coisas diferentes. Por isso decidi morar fora, para conviver com uma outra cultura e ter outras possibilidades. O projeto Grandes Pequeninos também pesou na decisão?Sim. É um projeto infantil que estou trabalhando há sete anos e que já foi indicado ao Grammy Latino. Estou gravando o nosso terceiro disco e é um projeto que tem tomado bastante tempo e, se me colocasse à disposição do Balão Mágico, não teria como cumprir. Não vou desviar meu foco. Tenho o maior carinho pelo Balão Mágico, mas é algo que já fiz, que já aconteceu, já teve muito sucesso. O meu esforço agora está direcionado na minha carreira. Desejo sucesso ao Balão.