O semiólogo, crítico literário, professor e romancista Umberto Eco, cuja biblioteca com 32 mil volumes acaba de ser aberta ao público na cidade italiana de Bolonha, dez anos após sua morte, tinha uma opinião sobre os livros: “Eles são insubstituíveis”. Essa visão apaixonada não parece cair de moda, mesmo em tempos de Inteligência Artificial, que indica querer substituir o sagrado ato da escrita. Prova disso é a uma das mais recentes polêmicas envolvendo esta revolução tecnológica que estamos vivendo. Há poucos dias, um documento inserido em um processo judicial quanto à violação de direitos autorais revelou algo bizarro. A gigante Anthropic, dona do Claude, uma das IAs mais populares do mundo, produziu um verdadeiro auto de fé para alimentar seu modelo de linguagem. Nesse processo judicial, movido por três escritores que se sentiram lesados por ter suas obras e ideias alimentando o Claude e outras IAs muito consumidas sem receberem um tostão por isso, veio à tona que a Anthropic – e possivelmente outras empresas do ramo – tem um método bastante controverso para obter o conteúdo de obras escritas por humanos e ainda não digitalizadas. Milhões de livros, muitos deles mais antigos, esgotados e até raros, foram comprados em editoras, livrarias e sebos. Para que cada página dos volumes fosse escaneada e seu conteúdo inserido no banco de dados da IA, os volumes foram desmantelados. Suas lombadas foram removidas e suas páginas, cortadas. Após essa etapa, o livro físico foi para a reciclagem e suas palavras para o acervo da IA.