-Imagem (Image_1.1472496)Demorou quase dois anos para que a cantora goiana Mel Gonçalves, de 27 anos, conseguisse chegar até a última instância para a retificação do nome e gênero em seus documentos pessoais. Transexual e famoso no Brasil inteiro depois do sucesso da Banda Uó, a goiana precisou da aprovação do Ministério Público e, de acordo com ela, “da boa vontade de determinadas pessoas para respeitarem a sua identidade de gênero”. Se a artista tivesse dado início ao processo de retificação hoje, provavelmente demoraria um pouco menos, principalmente depois de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na última quinta-feira, que aprovou que transgêneros e transexuais podem agora alterar o nome no registro civil sem a necessidade da realização da cirurgia de mudança física de sexo. Segundo a presidente da Corte, Cármen Lúcia, “não se respeita a honra de alguém se não se respeita a imagem que essa pessoa tem”.Mel, que mora em São Paulo há cinco anos, não precisou fazer a cirurgia, mas o caso dela é excepcional e foi o primeiro processo que correu em Goiás a permitir a mudança do registro sem a imposição cirúrgica, segundo a advogada Líbia Lhanesa Martins, que a acompanhou profissionalmente. “Trabalhamos com o Judiciário goiano para termos êxito sem a necessidade de cirurgia, em uma perícia, pela qual todos passam, para verificar a necessidade e a adequação. O laudo foi feito pelo Judiciário. Em seu esboço, se transcreveu claramente que negar o pedido de Mel, e de todas as pessoas trans, seria sentenciá-la à morte, ferindo gravemente o princípio da dignidade da pessoa”, explica a profissional.Nas próximas semanas, quando Mel estiver em Goiânia para pegar o seu novo registro civil e dar entrada na carteira de identidade, ela não precisará mais passar por desconfortos e incômodos ao mostrar seus documentos pessoais. “Não vejo como felicidade, mas como alívio. Motivo para comemorar mesmo é a aprovação do Supremo. Agora ficamos livres da autorização do Estado. Em aeroportos, em espaços fechados, para qualquer lugar que se vá, pedem o documento. É quem você é. Meu RG não contava minha história e não me reconhecia como tal”, pontuou ela, em entrevista ao POPULAR, em primeira mão sobre o assunto. Com outras amigas de Belém e Manaus, que moram em São Paulo e compartilham experiências, Mel conta que o processo foi bem mais rápido. Para ela, foi angustiante e sofrido. “Finalmente reconheceram meu direito. É cidadania, respeito e identidade”, comemora.SuspiroGoianiense do bairro Sonho Verde, Mel foi criada essencialmente por sua tia e a avó, que acompanham de longe os passos da cantora na televisão e na internet. “Tivemos muitas divergências, mas hoje conquistamos um amor muito maduro e respeitoso. Gosto muito de Goiânia, mas tenho muitos compromissos em São Paulo, estabeleci minha vida aqui. São Paulo me fez ser a mulher que eu sou. Sempre aprendo muito nesta cidade”, comenta. A cantora ainda deseja fazer a cirurgia de redesignação sexual, mas reitera que é preciso esperar o tempo certo para que isso aconteça. “Eu sou e sempre fui uma mulher. Nossa identificação é legítima. Existe uma construção social enraizada. Eu ainda quero fazer minha redesignação genital, mas vai acontecer no meu tempo e sem erros ou desespero emocional para me adequar à sociedade”, aponta Mel.