O Brasil perdeu um de seus cantores de voz e divisão rítmica mais originais: Milton Santos de Almeida, o Miltinho, aos 86 anos. Ele morreu domingo por volta das 16 horas, no Hospital do Amparo, zona norte do Rio, onde estava internado desde o final de julho em função de problemas respiratórios, e acabou tendo uma parada cardiorrespiratória. O corpo seria velado e cremado ontem no Memorial do Carmo, no Rio.Miltinho dizia sempre que aprendeu a ter tanto ritmo assim “com Deus”. Não teve professores. Desde menino, tinha fixação em pandeiro e admirava Silvio Caldas e Frank Sinatra. De uma família de classe média carioca, Miltinho, ainda na adolescência, formou o conjunto vocal amador Cancioneiros do Ar. Passou depois ao Namorados da Lua, Anjos do Inferno (com o qual atuou por cinco anos no México) e Quatro Ases e um Coringa.A seguir, foi crooner de orquestras e conjuntos em boates chiques de Copacabana, obtendo destaque no Milionários do Ritmo, de Djalma Ferreira, que abriu a boate Drink. Com o conjunto, lançou LPs de sucesso, nos quais o fox Devaneio e os sambalanços Lamento, Recado e Cheiro de Saudade tornaram célebre a voz de Miltinho. Em 1960, seu primeiro LP solo, Um Novo Astro, estourou o sucesso Mulher de 30, que o levou a ser conhecido por todo o País.AugeNa primeira metade dos anos 1960, vivendo o auge de sua carreira, Miltinho colecionou sucessos em ritmo de samba-canção (Poema do Adeus, Poema das Mãos, Meu Nome É Ninguém); sambalanço (Palhaçada, Só Vou de Mulher) e até boleros, como Lembranças – que, segundo ele, permaneceu 28 semanas nas paradas de sucesso, na Venezuela, levando o cantor a viajar muito àquele país e gravar por lá. Entre 1966 e 1976, gravou na Odeon 16 álbuns de prestígio, inclusive três antológicos em dueto com Elza Soares (Elza, Miltinho e Samba) e quatro com Doris Monteiro (Doris, Miltinho e Charme).A tão cultuada divisão rítmica de Miltinho não é famosa até hoje à toa. “Sou ritmista. A única particularidade é que canto dois tempos atrasado, a harmonia vai na frente. Você fica com dois tempos para errar. As pessoas não sabem que dois tempos em música é troço que não acaba mais, dá pra escrever uma carta pra casa”, disse, certa vez, com sua ironia habitual.PríncipeSim, era brincalhão, fazia piada de tudo, mas foi também um príncipe – pela educação e pelo português muito correto que falava. Percebi isso quando estive mais próximo dele, após ter produzido duas coletâneas com as canções mais expressivas de sua obra das fases RGE e Odeon.Também pude dirigi-lo e entrevistá-lo no palco em seu show de 80 anos, na Sala Baden Powell (RJ), e tive a honra de ele ter aceito convites meus para cantar na festa de lançamento de meu programa de rádio, e depois no História Sexual da MPB, do Canal Brasil, sua última aparição em TV, ao lado dos igualmente saudosos Jorge Goulart e Roberto Silva.Na ocasião, cantou e tocou pandeiro com aquele estilo inconfundível. Miltinho nunca nos deixará de todo, pois fez escola. Zeca Pagodinho, um de seus maiores fãs, está aí e não me deixa mentir. Rodrigo Faour é jornalista, pesquisador, escritor e produtor musical-Imagem (Image_1.654077)