Quando Luiz Carlos Barreto nasceu, em Sobral, no Ceará, em 1928, apenas três em cada dez crianças chegavam a completar um ano de vida. Ele dizia que tinha sido um desses três. E a persistência parece lhe ter feito bem. Não apenas se tornou um produtor de cinema, como persistiu, desde os anos 1960, como o mais longevo e um dos mais importantes produtores de cinema no Brasil.Barreto, ou Barretão, como era chamado por amigos e adversários, morreu na madrugada de quarta-feira (22), no Rio de Janeiro, deixando uma obra monumental, em títulos como Vidas Secas, Terra em Transe, Dona Flor e seus Dois Maridos, entre tantos outros.A informação foi confirmada por sua filha, Paula Barreto. Barreto, que estava internado no Hospital Copa Star, havia sofrido um acidente há dois anos e quatro meses e estava paraplégico desde então.Ainda adolescente, iniciou-se no jornalismo em O Democrata, jornal do Partido Comunista cearense que fechou as portas em 1947, quando o partido foi extinto para efeitos legais. Não se abateu. Foi para o Rio de Janeiro, onde conseguiu emprego na revista O Cruzeiro, o veículo de circulação nacional mais célebre e influente daquela época, onde se tornaria repórter e fotojornalista.Fazia parte de uma equipe notável, em que se destacavam nomes como José Medeiros ou Indalécio Vanderley. Barreto tomou Medeiros por mestre, na ocasião. Nele elogiava a simplicidade e o apego ao real, ao contrário de Jean Manzon, que elaborava suas fotos e lhes conferia uma qualidade artística. Não é por acaso que Medeiros se tornaria um importante fotógrafo de cinema.O trabalho na revista o levou a ser correspondente na França, como repórter e fotógrafo. Chegou a ingressar no Idhec, a escola francesa de cinema, mas saiu de lá poucos dias depois, pois não suportava a importância que era dada à teoria. Preferia frequentar os estúdios franceses e acompanhar as filmagens - o que lhe era facilitado pela carta de correspondente.A ligação com o cinema surgiu depois que voltou ao Brasil e conheceu Glauber Rocha ao acompanhar as filmagens de Barravento. Por coincidência, Glauber montou o filme numa moviola que ficava na casa de Barreto. E quem montava o filme era ninguém menos que Nelson Pereira dos Santos. A ligação com o cinema estava feita para sempre.Primeiro, Glauber o sugeriu como corroteirista de Assalto ao Trem Pagador, que Roberto Farias começava a preparar. Depois, quase obrigou Barreto a fotografar Vidas Secas, do próprio Nelson Pereira. Barreto ainda tentou convencer Glauber de que não era fotógrafo de filmes, mas de fotos e que as duas coisas eram muito diferentes.Glauber obviamente não aceitou a explicação. Para ele, era a chance de “desencaretar” a fotografia de cinema, além da possibilidade de um nordestino finalmente mostrar a luz do Nordeste. Barreto topou, arrancou todos os filtros que costumavam suavizar a forte luz do Nordeste, criou uma imagem de contrastes fortes e, com efeito, revolucionou a fotografia de cinema no Brasil.Nesse momento, já estava inteiramente ao cinema, tanto que fundou em 1963 a L.C Barreto, com a mulher, Lucy Barreto, que seria a sua produtora por toda a vida. Mas Vidas Secas não seria seu último prodígio fotográfico. Voltaria a trabalhar com Glauber em Terra em Transe. Novamente, a opção era não usar luz artificial e, de quebra, tomar enorme cuidado com o fundo das imagens para não deixar claro que o país imaginário do filme, Eldorado, não era o Brasil. O resultado é magnífico, embora fosse óbvio desde sempre que Eldorado era o Brasil.Sua estreia como produtor integral de um filma aconteceria em 1965, com A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de 1965, de Roberto Santos. Ali se fechava um círculo, pois Roberto era próximo de Nelson, de quem fotografara Vidas Secas por insistência de Glauber.O círculo se expandiria com a volta de Joaquim Pedro de Andrade de Paris. Por essa época, o banqueiro José Luiz de Magalhães Lins, do Banco Nacional de Minas Gerais, buscava projetos para investir em cinema.Ora, Joaquim Pedro era filho de Rodrigo de Melo Franco - importante intelectual e fundador do Iphan-, e tratava de adaptar O Padre e a Moça, poema de Carlos Drummond de Andrade. Tudo levava à parceria, de que Barreto seria peça chave. E Joaquim também estivera no início de Barreto no cinema, como diretor de Garrincha, Alegria do Povo.Naquele momento, já era claro que Barreto se impunha como um dos produtores de primeira linha no cinema brasileiro, apesar dos percalços políticos da época. Ligado ao grupo do cinema novo, viu Glauber ser exilado após fazer O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de que foi coprodutor como em Terra em Transe, aliás. Mas seu trabalho não tinha ainda a importância da Mapa, de Zelito Viana, outro importante produtor desse período.É ao longo dos anos 1970 que Barreto se estabelece como o principal produtor de cinema do país. Já era conhecido como Barretão, apelido que, segundo ele, não veio do meio cinematográfico, mas de Nelson Rodrigues, com que costumava acompanhar os jogos de futebol do Maracanã.É depois do fim do Instituto Nacional de Cinema e da consolidação da Embrafilme como principal distribuidora e órgão de fomento do cinema brasileiro que a L.C. Barreto se consolida também como principal produtora brasileira.Barretão costumava creditar esse sucesso também a sua mulher, Lucy, que esteve à frente de inúmeros projetos, enquanto ele próprio usava sua influência junto a políticos em defesa do cinema brasileiro e da própria Embrafilme, mas também, segundo adversários, em proveito próprio.O certo é que desde então enfileira uma sequência de trabalhos que, à parte serem bem-sucedidos, afirmaram seu modo de ver o cinema como uma arte em que a busca de qualidade não a deve impedir de atingir grande número de espectadores. Barreto pensava que o cinema não deveria ceder à TV o monopólio da comunicação de massa e que, em definitivo, não era uma arte para ser apreciada em pequenos grupos.Os exemplos não faltam em sua galeria. Chamam-se Bye Bye Brasil (1969), de Carlos Diegues, Inocência (1983) e Ele o Boto (1986), de Walter Lima Jr., Como Era Gostoso o Meu Francês (1971) e Memórias do Cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos, Menino do Rio (1982), de Antônio Calmon.Nenhum deles, entretanto, sintetizou tanto seu pensamento quanto Dona Flor e Seus Dois Maridos, dirigido por seu filho Bruno Barreto em 1976. Partiu-se ali da adaptação de um clássico da literatura brasileira, por Jorge Amado, para um sucesso com quase 11 milhões de espectadores no Brasil que seria indicado aos prêmios Bafta, no Reino Unido, ao Globo de Ouro, e consolidaria Sonia Braga como estrela internacional.Após o fim da Embrafilme, Barreto driblaria as dificuldades da era da retomada, nos anos 1990, emplacando dois filmes como candidatos ao Oscar de filme internacional - O Quatrilho (1995), de Fábio Barreto, e O Que É Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto.Se o século 21 viu decair a importância de Barretão, sua ligação com a política levaria à produção de Lula, o Filho do Brasil, de 2012, dirigido por Fábio Barreto. É verdade que uma parte do relativo fracasso pode ser atribuída à antipatia de parte dos espectadores pelo protagonista, em parte ao fato de a direção de Fábio não ser memorável.Mais do que isso, no entanto, pesou contra o filme a aparência de “chapa branca”, isto é, obra disfarçadamente oficial. Para que não houvesse sombra de influência política, Barreto evitou qualquer patrocínio oficial. Isso não resolveu o problema, pois, pior que isso, foi a acusação de ter sido financiado por empreiteiras associadas a grandes obras oficiais.Com tudo isso, o filme, que custou mais de R$ 17 milhões na época, não conseguiu mais de 850 mil espectadores no País, o que configura um fracasso mais que considerável.No entanto, isso não encerra toda a verdade do filme. Se é fato que Barreto há décadas se aproximara de Lula, inclusive politicamente, também é verdade que o centro do filme não é tanto o exercício da política quanto a importância dada a sua mãe, dona Lindu - Gloria Pires, no filme -, e menos o político ilustre do que o homem que superou as fragilidades da própria formação para ser visto pelo filme como exemplo de brasileiro que não aceita o destino que lhe confere o nascimento.Ou seja, não é pequena a proximidade ali com a história pessoal do próprio Barreto, também ele um nordestino, também ele um sobrevivente - um dos três em cada dez - e alguém que se dedicou a enfrentar as adversidades e a rejeição de que o filme brasileiro tem sido alvo ao longo de sua história.Entre fracassos e sucessos, Barretão marcou como poucos, com seus mais de 70 filmes produzidos, mas também com sua presença, a história do cinema brasileiro ao longo das sete décadas em que se dedicou a ele.