Pouca gente sabe, mas, em 1997, Junior Marvin, ex-guitarrista de Bob Marley, deixou a lendária The Wailers Band e veio parar em Goiânia. Apaixonado, o músico ficou durante dois anos na cidade, onde montou a Mamma Jamma, uma das bandas precursoras do reggae a oeste do País. “Lembro de assistir aos shows de Marvin e ficar impressionado. Tempos depois e eu participaria do grupo como vocalista”, recorda Rodrigo Kaverna, ou simplesmente Kaverna Man, músico que há 20 anos promove a resistência do gênero na capital.Em uma cidade de contextos tão plurais, como a indústria de artistas e estúdios de música sertaneja ao lado do celeiro de festivais e bandas indie, o reggae goiano resiste na periferia. Como um movimento que acompanha as transformações tecnológicas de produção musical, diversos músicos se jogam no sound system, isto é, sistemas de som criados na Jamaica comandados por DJs acompanhados por vocais na base sonora. “Com o sound system, fica mais acessível, fácil e barato desenvolver o reggae”, destaca Kaverna. Com Leon Ras, outro artista do reggae sound system, Kaverna tem produzido diversos singles já disponíveis no streaming. Na próxima semana, por exemplo, o músico lança o videoclipe da canção África Mãe. A questão da negritude, a ancestralidade africana e o desejo de paz são peças chave para entender batida e letra do duo. “O reggae vem dos negros da Jamaica. Não tem como você ter essa relação de negritude, com a questão da africanidade, já está na base do som”, explica o artista, que integrou grupos expoentes de Goiânia, como Ragga Rural e Rural Sistema de Som. As músicas mais recentes de Kaverna Man & Leon Ras estão disponíveis no canal do YouTube da Aksum Records, produtora de Goiânia que toca projetos de diversos artistas do reggae, como de Arthur Yan Amaral Mruk, o Ras Yam. Morador do Conjunto Romildo Francisco do Amaral, região oeste da capital, o músico de 24 anos se juntou com outros parceiros de reggae para promover e produzir a cultura sound system na cidade. “Cada um tem um papel muito importante de fazer com que o reggae atinja mais pessoas, de diferentes lugares. O reggae tem essa característica de ser democrático”, diz. A pandemia do novo coronavírus também pegou os regueiros de surpresa: diversos projetos, shows e ações coletivas dos artistas foram cancelados ou adiados. Em contrapartida, Arthur conta que agora aproveitam o tempo para criar novas canções e fazer apresentações virtuais. O músico participa de uma live marcada para sábado, às 16h20, junto com o King.Fef e Selector Ruderalis no Instagram da página Casa de Bob (@casadebob). “É um jeito de apresentar nosso trabalho e de mais pessoas conhecerem e compartilharem ideias, conteúdos, música.”Além do projeto musical, Arthur também levou o reggae para o seu projeto de pesquisa da graduação em Geografia pela Universidade Federal de Goiás. Ao longo de um ano, pesquisou a relação do sound system entre Jamaica, São Paulo e o Centro-Oeste brasileiro. “Busco entender como se deu a expansão da cultura sound system jamaicana, marcada por um processo migratório de parte da classe operária da Jamaica, que levou consigo o ritmo do ska e todas suas derivações, como reggae, dancehall e dub”, explica. Ruas ocupadasProjetos de sound system tocados pelo DJ Alexandre Perini, como no Centro Cultural Martim Cererê, ajudam a dinamizar a cena do reggae na capital. Atentos aos movimentos de ocupação urbana, a dupla Sista Babi e King Zulu promovem diversos “bailes” de reggae sound system, em ações itinerantes por Goiânia. Em 2019, antes da pandemia, pelo menos uma vez ao mês o casal desenvolveu ações em praças da cidade e no Diretório Central dos Estudantes da UFG. “O sound system tem essa característica de poder estar em diferentes lugares e ocupar de fato a rua. Com a quarentena, acabamos focando mais no processo de produção para, quando tudo isso acabar, voltarmos para os espaços urbanos”, destaca King Zulu, ou Rafael da Silva Guimarães. Engana-se quem acha que não há mulher no reggae goiano. Apesar de ser um movimento majoritariamente formado por homens, as “minas” estão à frente da cena, como Sista Babi, nome artístico da DJ de Abadia de Goiás Bárbara Ketrin Martini Pereira. “Mesmo no cenário do reggae ainda há muito machismo. Eu trabalho para dar voz às mulheres que desejam se incorporar ao gênero musical serem ouvidas, tocadas.”-Imagem (Image_1.2077696)