Na semana passada, ao chegar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, para embarcar para uma das palestras do projeto Diálogos Contemporâneos, após um ano e meio isolado, o escritor Ignácio de Loyola Brandão, de 85 anos, teve a sensação de que viajava de avião pela primeira vez. “Aeroporto vazio, quando é sempre tumulto. O avião, lotado. Nenhum distanciamento protocolar. Máscaras, sim. Todos usavam. Mas no portão de embarque nenhuma distância, as pessoas ansiosas amontoavam-se. Ninguém parece ter aprendido nada. Tive certo medo”, confessou o romancista, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras em entrevista ao POPULAR. Ignácio vem a Goiânia nesta terça-feira falar sobre literatura, pestes, pandemias e distopias - ficção e realidade. Para a mediação da conferência, às 19 horas, no Teatro Goiânia, entra em cena o professor e teatrólogo, ex-secretário de cultura de Goiânia, Sandro di Lima. A entrada é franca. Durante a palestra, o autor do profético Não Verás País Nenhum, que completa 40 anos do lançamento em 2021, vai falar sobre os rumos do Brasil nos últimos dois anos, os efeitos da pandemia, a crise política e sobre como viver em uma distopia que não é mais uma ficção. O livro, aliás, permanece mais atual do que nunca. A narrativa desenrola-se em um futuro não determinado; no entanto, cada vez mais presente – falta d’água, calor insuportável, desaparecimento das florestas, dos rios, flores artificiais, montanhas de lixo, controle da informação, excesso de população, fichas para circulação, filas para tudo, polícia corrupta e assustadora, governantes medíocres e alienação. Para muita gente, uma previsão do que seria o Brasil de 2021. Eleito personalidade literária do ano pela 63ª edição Prêmio Jabuti e autor de 47 livros, Ignácio de Loyola Brandão contou que está escrevendo um novo romance inspirado na pandemia da Covid-19. “Este cotidiano do isolamento vai transparecer no meu novo romance que se passa em uma pandemia que dura sete anos e não deixou ninguém vivo”, adiantou. Na conversa, o autor antecipa alguns dos temas que serão explorados na conferência desta noite. Confira trechos da entrevista: Não Verás País Nenhum, que completa 40 anos do lançamento em 2021, tem sido constantemente chamado de “profético”. Como o senhor encara esse adjetivo?Profético? Profético nada! Antecipador. Vou contar em Goiânia meu processo e como aprendi com meus professores a ser escritor. Vou contar o grande conselho que Nelson Rodrigues me deu um dia. O elo entre 1981 e 2021 é meu livro. O que escrevi ali, acontece aqui: aquecimento global, doenças estranhas, devastação cada vez maior, tempestades de vento matando pessoas, temporais e inundações, corrupção, um governo idiota, ministros idiotas, parlamentares idiotas. Todos bons oportunistas, querendo garantir o seu. Vou ler a carta que enviei em forma de crônica para o ministro da Educação, quando ele declarou que professor é uma pessoa que não conseguiu ser outra coisa na vida. Fiquei muito indignado. Em Goiânia, o senhor falará justamente sobre distopias - ficção e realidade. Ao considerar a situação atual do Brasil, acredita que o horror da realidade tem superado a ficção?Entre outras coisas, falarei de distopias. Virei o “rei” delas. Porque vivo anos décadas lá na frente e retrato o que vejo. Estamos vivendo uma distopia com Bolsonaro, Damares, Guedes, os zero zero zero. As rachadinhas, o ganhar dinheiro com vacinas, o negacionismo, um Centrão podre. Vivemos outra distopia com a Covid, as mortes, os escândalos, médicos assassinos. Outra com a fome, a miséria, a inflação, a polarização, o povo buscando restos de ossos para fazer sopa, a crise hídrica, ambiental, do caráter e da moral. Outra com as redes sociais, as fake news, os gabinetes do ódio. E a maior de todas, a inércia, o comodismo e a covardia. O absurdo tornou-se a realidade, a realidade, a fantasia, a fantasia, o delírio e a sem-vergonhice.O senhor acredita que em tragédias humanas como a que vivemos no Brasil, com mais de 600 mil mortos, há um padrão de comportamento que se repete como a negação da ciência?A ciência e a cultura já vinham sendo negadas e rejeitadas desde a ditadura. Agora, tudo foi retomado. Caminhamos para trás. Grandes conquistas foram jogadas no lixo. Medo da cultura, ela abre cabeças, ilumina as pessoas. O mesmo padrão se reflete em outros países. Tenho medo de chegarmos ao Talebã, radicais, fanáticos, violentos, cegados pela religião. Ou será apenas maldade? O que foi liberado no mundo foi a maldade que existe dentro de cada um. A maldade leva à violência. O prazer da violência. Esta liberação da maldade e da violência é o fim da civilização? Na sua opinião, o que a literatura tem a dizer sobre os tempos vividos atualmente no Brasil e qual a importância de se exercitar o diálogo?Há uma coisa positiva. Nunca se fez tantas lives, surgiram tantos blogues, tantos influenciadores. Há bons e há os diabólicos. Mas nunca fiz tanta palestra on-line, tanta conversação, troca, mensagens. As pessoas não dialogam, cada um se tornou o dono da verdade. A verdade de cada um é o que é que impera, domina. Cada pessoa virou um mini ditador. Egoísmo ultra, não há abertura. As respostas são aos berros, gritos, palavrões, impropérios. Um ministro que mostra o dedo central erguido é o símbolo deste sistema. Qual é o lugar dos escritores na sociedade brasileira com cada vez menos leitores?O lugar dos escritores é sempre o mesmo em todos os países, todas as literaturas. Escrever, mostrar a realidade, os dramas, as convulsões, as alegrias, as felicidades. O escritor vai escrever sobre o que acontece à sua volta. Solidão, depressão, loucura, suicídios, vida. Mas ele pode escrever sobre o quiser, a literatura é livre. Com os Mários Frias por aí teremos liberdade? Agora, você vai se surpreender. Vendeu-se muito, mas muitos livros durante a pandemia. Algumas livrarias fecharam, mas outras abriram e se sustentam. Pessoas mais esclarecidas estão procurando saber o que os escritores estão dizendo, documentando, avaliando, criticando. Explodem livros de Djamila Ribeiro, Eliane Brum, Eduardo Gianetti, Patricia Campos Mello, Drauzio Varella, Tati Bernardi, Rosa Montero… Como o senhor recebeu a indicação de personagem literária do ano pelo Prêmio Jabuti?Há uma frase de Lygia Fagundes Telles, colega em duas academias e em centenas de viagens pelo Brasil e exterior, que repito sempre: recebi com alegria. Feliz. Que me deem em vida o que me desejam dar, prêmios, diplomas, dinheiro, viagens, tudo. Glórias quentes, dizia Lygia. Vivas. Depois que estiver debaixo de um granito gelado, não quero nada. Nem terei como saber. Ou terei? Meu (bom) problema é que tenho em minha estante um curralzinho com cinco Jabutis, sendo um dourado. Eles estão meio apertados e ficam nervosos quando entra um novo livro em casa, sabem que o espaço deles será reduzido. Agora, temem mesmo quando saio para assistir à cerimônia de entrega. Gritam: aqui não cabe mais ninguém. Quais lembranças guarda de suas passagens por Goiás?De um autor como Miguel Jorge ainda ativo, produzindo. Das Flipiris de Pirenópolis, lotadas. De minha amizade e admiração por Lucília Garcez que morreu há pouco e era imensa batalhadora pela literatura infantil. Do bacalhau de um restaurante da capital cujo nome esqueci, infelizmente. Da companhia amável, de Washington Novaes, que me ensinava dia a dia. Da sala dedicada a José J. Veiga no Sesc com mobílias, originais, biblioteca e máquina de escrever. Comovente. Da noite que fiz meu show Solidão no Fundo da Agulha com minha filha Rita Gullo no Sesc Goiás. Da noite, décadas atrás, quando fui patrono da formatura da turma de jornalistas da Universidade Federal de Goiás, ao lado de Dom Pedro de Casaldaliga. Entre as formandas, estavam Cristiana Lobo e Cristina Veiga.