Na manhã de 11 de setembro de 2001, os irmãos franceses Jules e Gideon Naudet estavam em uma avenida de Nova York filmando o trabalho de bombeiros da cidade para um documentário. Enquanto um dos personagens verifica um vazamento de gás, um barulho estranho domina o céu. O bombeiro olha espantado para o alto e o cinegrafista volta sua câmera para acompanhar o ruído. Um avião de grande porte está dando um rasante sobre os arranha-céus e, poucos instantes depois, a aeronave se espatifa contra a fachada de uma das torres do World Trade Center. Era o início de algo impensável.Há exatos 20 anos, num dia ensolarado do final do verão no Hemisfério Norte, o mundo começou a ver o que parecia ser inimaginável. A grande potência mundial estava sendo duramente atingida em seu coração econômico e político por uma série de ataques terroristas articulados com dimensões inéditas. Desde o bombardeio japonês da base de Pearl Harbor, no Havaí, que fez o país ingressar na Segunda Guerra Mundial, não se via uma investida inimiga de tais proporções contra o território norte-americano. Em 11 de setembro, porém, os alvos não eram militares, mas civis. Um pesadelo se realizava.As imagens captadas pela dupla de documentaristas franceses são as únicas a flagrar o choque do primeiro avião contra a torre norte do complexo do World Trade Center, na área mais nobre de Manhattan. Depois que o choque fez uma bola de fogo surgir em um dos cartões-postais mais famosos do mundo, as emissoras de TV passaram a transmitir a situação ao vivo. E foi por meio delas que, incrédulos, milhões de pessoas ao redor do planeta viram, 17 minutos depois, um segundo avião se aproximar em baixa altitude e ser lançado contra o segundo edifício das Torres Gêmeas. Parecia cena de filme-catástrofe.No meio do pânico generalizado, surgiu a notícia que um terceiro avião de passageiros, também sequestrado por terroristas, havia sido lançado contra as instalações do Pentágono, em Washington, sede do maior poderio militar do planeta. Uma quarta aeronave, que possivelmente também rumava para a capital dos EUA, havia caído nos campos da Pensilvânia. Existe a forte suspeita de que, se não tivesse sido derrubado pelos próprios passageiros, já cientes dos ataques a Nova York, esse quarto avião estaria destinado a algum outro alvo icônico, o Capitólio ou mesmo a Casa Branca.Ao todo, quase 3 mil pessoas perderam a vida nos ataques, contando os passageiros dos aviões e as equipes de resgate soterradas quando as Torres Gêmeas ruíram. “O 11 de Setembro deixou a imagem de que os EUA podiam ser atingidos”, define Danillo Alarcon, professor do curso de Relações Internacionais da PUC Goiás. “Houve um impacto midiático muito grande. Sem querer minimizar a quantidade absurda de mortos naquele dia, esse número ainda é bem inferior ao de vítimas de atentados terroristas realizados em países do Oriente Médio em conflito ao longo dos anos. Mas o efeito simbólico foi imenso.”Para Danillo, que entre suas pesquisas estão as relações entre Ocidente e os países árabes, o 11 de Setembro não pode ser explicado como algo isolado naquela manhã trágica. “É um marco histórico, mas dentro de um contexto mais amplo, que vem desde os anos 1990, desde a queda da União Soviética e da primeira Guerra do Golfo, em 1991. Houve até a perspectiva de que haveria um tempo de multilateralismo, com as potências ocidentais trabalhando em conjunto. Mas isso não aconteceu. Os EUA tentaram impor sua hegemonia e em certos países a resposta a essa tentativa foi um ‘não’.” Alguns contextos históricos que envolvem o 11 de Setembro levam a conflitos anteriores. A Al Qaeda, grupo terrorista que assumiu os atentados e era liderado por Osama Bin Laden, teve uma de suas gêneses nas políticas dos EUA de apoiar grupos que lutavam contra seus inimigos, não importando tanto seu nível de radicalismo. O afegão talebã, que agora voltou aos noticiários, era uma dessas células, já que eles combatiam os soviéticos nos anos 1980. Mas foram exatamente eles que deram guarida à Al Qaeda e a Bin Laden, que pôde, assim, planejar suas ações contra o “Grande Satã”, como designavam os EUA.Antes de 2001, ataques da Al Qaeda já davam sinais nesse sentido. O próprio World Trade Center havia sido alvo em 1993, quando um carro-bomba explodiu em seu subsolo. Além disso, Bin Laden era da Arábia Saudita, um dos principais aliados dos EUA no Oriente Médio, país de origem da maior parte dos 19 terroristas que sequestraram os aviões. “O 11 de Setembro revela que a política de hegemonia dos EUA fracassara. Uma espécie de Lei do Retorno, em que os EUA acabam criando seus grandes inimigos. Mesmo com as mudanças de governos, essa é quase uma política de Estado, que se manteve”, diz Danillo.“Os EUA perceberam que existiam limites para impor essa hegemonia, mas isso não os impediu de tentar impô-la depois do 11 de Setembro”, salienta o professor. “Na Guerra do Afeganistão, que terminou apenas agora, os EUA ainda tinham o apoio de seus aliados do Ocidente. Mas já para a segunda guerra do Iraque, isso mudou. Desde 2002 havia pressão pelo conflito e em 2003 eles invadem o país sem mandado da ONU, mostrando mentiras para justificar a ação.” Em sua avaliação, essas iniciativas reforçaram a ideia de um choque de civilizações, o que também piorou os preconceitos quanto aos muçulmanos.“A islamofobia piorou depois do 11 de Setembro, infelizmente”, avalia Danillo. “A imagem negativa dos muçulmanos já existia na produção cinematográfica dos EUA, por exemplo, mas, com o 11 de Setembro, essa situação ficou ainda mais complicada, também na Europa. Aí entram também as questões ligadas à imigração.” Em termos práticos, a investida das tropas norte-americanas sobre o Iraque derrubou o ditador Saddam Hussein, mas tanto no Iraque, quanto no Afeganistão, palcos das duas guerras que vieram após os ataques de 20 anos atrás, as nações mergulharam em esfacelamento e conflitos internos.