O reconhecimento de uma vida inteira dedicada à música. É dessa forma que a pianista, flautista e pesquisadora goiana Andréa Luísa Teixeira disse ter recebido a notícia de que seria agraciada com o Prêmio Gala da Lusofonia da área de Música. A cerimônia será realizada hoje, no Auditório Municipal Ruy de Carvalho, em Oeiras, em Portugal. A goiana foi a personalidade eleita dentre os nove países que falam a língua portuguesa para receber o prêmio que está na quinta edição e reconhece, além da música, áreas como teatro, cinema, literatura e educação. “É muito bom ter o trabalho reconhecido. Sempre levei a música muito a sério”, disse em entrevista ao POPULAR. Andréa é pesquisadora da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás desde 1993 e foi coordenadora do Centro de Folclore e História Cultural do Instituto do Trópico Subúmido da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. O prêmio é um reconhecimento ao conjunto de suas pesquisas em música folclórica, indígena, musicologia e performances na divulgação da música e cultura luso-brasileira que realiza há mais de 25 anos. De Portugal, onde receberá o prêmio, a pianista conversou com a reportagem. Confira trechos: Como a senhora recebeu a notícia de que tinha vencido o Prêmio Gala da Lusofonia da área de Música?O embaixador Lauro Moreira, por telefone, disse que pelo trabalho que desenvolvo pela divulgação da música brasileira e como investigadora, ele havia indicado meu nome para o Gala. Foi ele quem me disse que, após a verificação de todos os currículos indicados, o comitê curador havia escolhido meu nome para receber o prêmio. Como está a expectativa para esta noite de premiação em Portugal?Estou muito feliz com essa vitória. Sempre trabalhei em prol da cultura goiana. Foram anos atuando nas mais diversas áreas. Recebo o prêmio sabendo que sempre tive os melhores pais, irmãos, filho, amigos e colegas de trabalho que fizeram parte dessa caminhada, que desenharam comigo o perfil dessa história. É muito bom ter o trabalho de uma vida reconhecido. Sempre levei a música muito a sério. Aos 13 anos, trabalhava como professora de piano. Aos 14 anos, já tinha carteira profissional da Ordem dos Músicos do Brasil, na categoria erudito e popular, com três instrumentos: piano, flauta e cavaquinho. Sou grata a todas as pessoas que me estenderam a mão durante meu percurso. O Prêmio Gala da Lusofonia da Música é do Brasil. Como é sua relação com Portugal?Fui convidada para fazer um concerto na Universidade de Coimbra em 2006. Apaixonei-me pelo País assim que desembarquei e prometi que moraria em Portugal. Algum tempo depois, estava morando em Lisboa para fazer o doutorado em Ciências Musicais Históricas na Universidade Nova de Lisboa, que está na fase final. Tenho Portugal como um país que me recebeu com todo respeito, tanto pessoal como profissionalmente. Minha relação é de afeto que foi construído com muitos momentos de respeito recíproco e afinidades profissionais. Quando nasceu seu interesse na pesquisa da música folclórica e indígena?Estudava psicologia na Universidade Católica de Goiás quando, na aula de antropologia social da professora Sarita Rassi, apareceu o professor Altair Sales Barbosa para uma conferência. Ele havia acabado de encontrar a ossada humana mais antiga das Américas, com 14 mil anos, na região de Serranópolis. Fiquei impressionada com a palestra e pensei em tantas possibilidades que a antropologia proporcionava nos estudos da música. Foi quando despertou a vontade de fazer o mestrado sobre as manifestações folclóricas. Foi o professor Altair que me mostrou gravações em fita de rolo que ele havia feito na década de 1970 com várias comunidades que faziam o giro da Folia de Reis, bem como fita cassete com o mesmo grupo da década de 1980. Me apaixonei pela pesquisa folclórica, pela antropologia. Pude ver, na pesquisa de campo, o quanto aprendemos sobre música e natureza. É a arte sobre a arte. É a vida que nos acaricia e transforma. O que mais te surpreendeu no seu processo de pesquisa?Quando se está em pesquisa de campo, as surpresas são muitas, e o pesquisador deve ter um olhar êmico e ético. O objeto estudado em seu espaço e ambiente reais não pode ser invadido. Vários aspectos me surpreenderam durante os processos de pesquisas, principalmente, a forma cordial e aberta com que várias comunidades te recebem. Encantou-me o respeito com que as manifestações folclóricas têm com a natureza, como eles a percebem. É um presente ter a oportunidade de conviver com um universo que promove tantas possibilidades, e todas elas, para mim, são únicas. Como foi dedicar grande parte da sua pesquisa a manifestações como a Folia de Reis?As folias de reis foram meu objeto de pesquisa no mestrado, que fiz no Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro. Lá tive oportunidade de ser aluna do querido doutor Antônio Jardim, que me orientou de uma forma muito especial. Acabei criando uma terminologia filosófica chamada “densidade do próprio”. O que é próprio para o folião durante todo o ano que ele trabalha com a terra e o que é próprio para ele entre o Natal e o dia de Santos Reis, enquanto ele canta, toca ou participa do giro da folia. São mitos, ritos, símbolos, tempos. Encontrei vários grupos de folias de reis descendentes de escravos, descendentes indígenas que se miscigenaram, europeus que se miscigenaram com comunidades afastadas. Há muitas manifestações ainda a serem exploradas no nosso País. Há uma diversidade enorme e encantadora. Como surgiu o interesse pela música, em geral, e o piano, em particular, na sua vida?Minha mãe, que me ensinou as primeiras notas, cantava músicas de ninar para todos os filhos. Somos quatro irmãos. Ela sempre disse que o alimento era para o corpo, e a música para alimentar a alma. Já adorava o som do piano. Estudei com Denise Felipe, Lilian Mendonça, Belkiss Spencieri e Custódia Annunziata, todos fundamentais em minha trajetória. Aos 12, comecei a estudar flauta transversal; aos 14, cavaquinho; e aos 15, viola. Meus irmãos tocavam violão, harpa, bateria, guitarra. Tínhamos uma mini-orquestra em casa, mas fui a única que se dedicou para trabalhar profissionalmente com música. A música caminha comigo desde sempre, e é meu bálsamo. Tive a sorte de ter pais que me deram todo o apoio e que partilharam comigo todas as tristezas e alegrias que a profissão nos dá. Nada é somente triunfo. Ele chega com muita dedicação e esforço. Qual a importância da professora Lilian Carneiro de Mendonça na sua trajetória profissional?Lilian me ensinou como eu deveria estudar o piano. Ela sempre foi uma professora que coloca seus alunos para pensarem não apenas a música, mas o que acontece ao seu redor, onde estamos e como podemos melhorar. Penso que isso fez toda a diferença não apenas em minha trajetória profissional, mas pessoal. Lilian tem uma metodologia de ensino que já foi tese de doutorado. Uma professora atenta às singularidades de cada pessoa. Com a Lilian comecei a viajar para fazer os concursos nacionais e internacionais de piano. A senhora é reconhecida pela divulgação da música luso-brasileira. Por que há tantos bons compositores nos dois países que são pouco conhecidos e divulgados?Os artistas precisam primeiro, valorizar seus pares. Vários segmentos artísticos, por exemplo, se fecham, priorizando apenas alguns amigos, e consequentemente, as mesmas pessoas. Enquanto não houver intérpretes que valorizem os compositores de sua região, de seu Estado, de seu país, não existirão oportunidades do público conhecer estes compositores. Como vejo Portugal como minha segunda casa, comecei a divulgá-los também. A arte promove à sociedade fatores agregadores, e não de exclusão. O poder da arte de transmitir ideias é imenso, bem como o de mudar costumes, então o artista tem um papel fundamental na valorização da arte em geral. De que forma as características africanas e indígenas influenciaram a música clássica do Brasil?Somos um País com um mosaico cultural incrível. As influências indígenas e africanas estão ao nosso redor, em todo o espaço, bem como as influências europeias. O que falta muitas vezes, é perceber e respeitar todas as diferenças. Como avalia o cenário da pesquisa musical em Goiás?A pesquisa musical em Goiás possui uma história muito peculiar. Começou sendo gerida e produzida por mulheres, como Nhanhá do Couto, Belkiss Spencieri e Maria Lucy Veiga Teixeira, dentre tantas outras. Não podemos esquecer de tantos músicos dos séculos passados como o maestro João Ribeiro, João Pirahy e Tonico do Padre. Todos foram e são partícipes desta grande construção musical goiana. Depois vieram Glacy Antunes, Marshal Gaioso e Othaniel Pereira de Alcântara Júnior. Hoje também temos um Laboratório de Musicologia dentro da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás criado e comandado pela musicóloga Ana Guiomar Rêgo Souza, que além de contribuir nas pesquisas de música goiana, tem produzido e realizado eventos primordiais para o desenvolvimento da pesquisa musical no nosso Estado.