Em 2012, a Panini Comics colocava no mercado do eixo Rio-São Paulo a graphic novel Astronauta – Magnetar, primeiro de 21 títulos que fariam uma releitura dos personagens criados por Mauricio de Sousa, no projeto Graphic MSP. Longe dali, em Porto Alegre (RS), um menino de 17 anos se dividia entre o ensino médio e a paixão pelo desenho. Cercado por influências como Mafalda, Snoopy, Calvin e Haroldo, ele criou seu primeiro personagem, o Morte Crens. De lá pra cá, fez cursos, conheceu gente importante e escreveu seu nome na lista de apostas da nova cena nacional de quadrinhos. Como em uma maratona, Gustavo Borges apertou o passo e, com 22 anos, chegou a tempo de assinar roteiro e arte de Cebolinha – Recuperação, o penúltimo livro do tributo ao pai da turma da Mônica.Considerado um fenômeno dos quadrinhos, ele esteve em Goiânia no final do mês passado, quando autografou a publicação e teve a oportunidade de conhecer alguns quadrinistas da capital. Na passagem pela cidade, falou sobre o Graphic MSP, que convidou artistas brasileiros para contar, com outros traços, as histórias de Mauricio, e sobre a responsabilidade de recriar um personagem que o acompanhou por toda a sua infância. “Eu vinha seguindo os outros lançamentos da Panini e nunca cheguei a pensar que poderia trabalhar em um projeto dessa importância. Até porque, em 2012, eu sequer era profissional”, lembra, confessando que o momento mais emocionante foi quando recebeu a notícia de que desenharia o Cebolinha. “É meu personagem preferido, sou parecido com ele.”A notícia foi dada pelo jornalista Sidney Gusman, braço direito de Mauricio de Sousa e uma espécie de guardião da essência dos personagens no projeto. Gusman escolheu a dedo os artistas que redesenhariam tantos os personagens icônicos – como Mônica, Chico Bento e Cebolinha –, quanto os não tão clássicos assim, como Capitão Feio, Papa-Capim e Piteco. “Foram quase sete meses trabalhando no livro, com a assessoria do Sidney. Assim como nas outras 19 graphic novels, Mauricio só viu o material depois de pronto, quando fez o prefácio e deu a bênção. A exceção foi com o Horácio. Como ele é o alter ego do cartunista, o processo foi mais cuidadoso”, explica Gustavo, relembrando que a missão de redesenhar pela primeira vez o dinossauro foi dada ao quadrinista Fábio Coala.Uma história como tantasA trama criada por Gustavo se passa durante o segundo semestre na escola e, no final desse período, Cebolinha acaba ficando de recuperação por focar em uma disputa com outro menino e deixar os estudos de lado. “Queria mostrar o Cebolinha fora daquela rotina da turma da Mônica. O que acontece com ele quando não está correndo atrás do coelhinho dela. Ele também é filho, irmão e neto. É um menino feito de várias camadas”, explica. Na releitura do clássico personagem, o quadrinista não se acanha e abraça o clichê enfatizando os planos infalíveis que o menino é mestre em arquitetar. “Fiz questão de não reler nenhuma história antiga. O Cebolinha do livro é o garoto que estava guardado dentro de mim há 20 anos. Por isso, tem muito do Gustavo nele também.”-Imagem (Image_1.1687454)